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segunda-feira, 3 de julho de 2017

Era Todo Ouvidos (ou O Ouvidor Real)

Depois de décadas de tirania, o imperador e rei estava finalmente morto. O anúncio, feito pelo porta-voz da Coroa, do púlpito do Palácio, foi recebido pela multidão com silenciosos vivas. Era o fim de uma era.
O imperador não deixara filhos. O trono estava vazio. Com apreensão, aguardava-se o nome do sucessor. Pelos corredores do Palácio, especulava-se, aos cochichos, quem seria o dito-cujo. Em seu testamento, Sua Majestade, sem explicitar os motivos, deixara o trono ao menos cotado da Corte: o ouvidor.
O novo imperador, ao falar, pela primeira vez, à multidão, prometeu novos tempos. O discurso foi ouvido com intensos aplausos e sonoros vivas. E como não ver o amanhecer com sorriso nos olhos, quando nosso futuro está nas mãos daquele que sempre nos ouviu, mesmo quando a ordem era endurecer?
Como ouvidor, do nascer ao pôr-do-sol, do primeiro ao último das filas que se formavam em volta do Palácio, por todos aqueles anos, ele recebia, um a um, em sua sala, e ouvia com atenção, as mais distintas queixas e lamúrias.
Um dia, um triste acontecido fez-me ir até o mais novo imperador. Como sempre, do fim da fila, não se viam as portas do Palácio. Terminada a longa espera, contei a Sua Majestade que um dos seus homens, ao coletar impostos, me levou além do devido. Dos cinco sacos de estopa cheios de frutos que eu colhera por aqueles tempos, deixou-me, não os quatro, como de costume, mas tão só um.
Como eu esperava, o imperador, demonstrando insatisfação com o que ouvira, mandou chamar o tal homem. Cobrou-lhe explicações e o repreendeu na minha presença. Por fim, ordenou-lhe que me devolvesse o que era meu por direito.
— Sim, Majestade — acatou o súdito, sem levantar a vista.
O homem foi lá dentro e, antes que voltasse com minha colheita, agradeci ao imperador o que fizera. O coletor de impostos devolveu-me meus quatro sacos de estopa, aparentemente vazios. Olhei dentro e não vi mais que dois ou três frutos em cada um deles. Desconcertado, sorri um sorriso amarelo e pensei: “Se fossem outros tempos, nem isso eu teria.” Voltei para casa, com os sacos de estopa quase vazios sobre os ombros.
— Para começar, está bom. Vai melhorar — disse eu a mim mesmo, resignado.
Não tardou muito e aquele triste episódio me voltou a acontecer: o coletor de impostos levara-me novamente mais do que devia. Aliás, dos cinco sacos de estopa com frutos, agora ele me deixara a mísera metade de um dos sacos, e não um saco repleto de frutos, como outrora.
Tomado pela ira, repeti o ritual. Fui ao Palácio. Após enfrentar a interminável fila, relatei o ocorrido ao imperador, que esbravejou indignado contra o coletor de impostos, que, por sua vez, sem levantar a vista, me trouxe meus sacos de estopa vazios, ou quase.
Enquanto o homem fora pegar o imposto a mais que de mim coletara, pude ver, pela porta entreaberta, a sala de jantar do Palácio. A mesa estava posta. Deduzi que a ceia já esperava o imperador. Olhei com mais atenção e meus olhos encontraram, entre as iguarias à mesa, grande porção dos frutos que eu mesmo colhera e que me foram tomados indevidamente. Compreendi que o imperador não só sabia dos atos reprováveis do coletor de impostos, como era o principal beneficiário deles. Foi aí que não consegui mais conter minha ira.
— Majestade... — da minha boca escapulia o vocativo real.
— Pois não, súdito meu.
— Perdão, Senhor, mas preciso lhe dizer algo que me incomoda e o atinge diretamente.
— Sou todo ouvidos e assim será. Fale.
Como me fora concedido o direito à palavra, externei o que notara e as impressões acerca das injustiças que me eram infligidas, sob as barbas do imperador.
— Desde já, entristece-me, Majestade, pensar na possibilidade de que, aquele em quem depositamos nossas esperanças, tornou-se nosso algoz. Dói-me menos a barriga vazia que tomar ciência de que vossos banquetes sejam regados pela nossa fome; que vossa gula se alimente da nossa carência; que o que sobre em vossa mesa, nos falte; que, daquilo que Vossa Majestade esbanje, nos restem não mais que migalhas; que vosso deleite seja nossa dor.
Acreditava eu que, sendo o imperador homem tão justo, reconheceria as próprias falhas e repararia os malfeitos. De seu lado, Sua Majestade não desviou o olhar, tampouco me interrompeu uma única vez. Seu semblante conservava-se sereno o tempo todo. Após ouvir meu desabafo, chamou a guarda e voltou a me escutar: aos berros, eu clamava que cessassem em mim aquela horrenda tortura, em vão. Implorei que, ao menos, meus carrascos abreviassem minha dor e me matassem sem demora, mas eles não me deram ouvidos.
Não bastassem os socos e pontapés por todo o corpo, por fim, cortaram-me a língua. Minha boca já não articulava palavra alguma: agora, eu era, tão só, medo, sangue e dor. Como bom ouvinte que sempre fora, o imperador ouvia tudo de perto. Ouviu-me até o fim. Até meu fim, foi todo ouvidos.

* O conto foi selecionado para publicação I Edital da Revista Literária Digital Motus (Movimento Literário Digital).

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Kitiama para sempre



Quando E. L. E. nasceu, não chorou. Sorriu. De certo sabia o que viria pela frente. E. L. E. seria a cobaia, melhor dizendo, o grande felizardo a participar de um projeto-piloto que o beneficiaria por toda a vida com programas sociais do Governo.
A ideia do projeto saiu da mente brilhante do grande idealista Governador S. R. Kitiama. Governador atualmente. Porque ele já tinha sido prefeito, deputado, senador e, ao que tudo indicava, tinha tudo pra ser o próximo presidente da República.
E nada mais justo que homenageá-lo dando aos projetos sociais o nome dele, que era o pai da ideia. E assim, Kitiama foi criando as ações de Governo: Kit Educa, Kit Emprega, Kit Aposenta. E se o projeto-piloto desse certo, num futuro bem próximo, não teria quem no mundo não fosse contemplado com o programa, batizado de Kit Ajuda Eternamente.



E. L. E. mal abriu os olhos e já lhe puseram na boca uma teta cheia de leite. Era a primeira ação de Governo que o beneficiava: o Kit Amamenta. Depois veio o Kit Põe Pra Arrotar, o Kit Acalenta, o Kit Aquece e o Kit Banha.
E a cada passo que E. L. E. dava, sentia o apoio incondicional do Kit Segura Pela Mão, do Kit Guia e até do Kit Deixa Andar Com As Próprias Pernas. Mas E. L. E. queria mais. E o Kit Deu. E o Kit Fez Pensar Que Aquilo Nunca Mais Ia Ter Fim.
E E. L. E. percebeu que não era igual a todo mundo, porque só com E. L. E. estava o Kit Faz Diferente. Mas aí, E. L. E. pensou: do Kit Adianta Ter Tudo Kit Dá Na Telha se nada disso é o Kit Faz Feliz?
Mas isso tudo já tava ficando muito perigoso. E, pra ser sincero, o pessoal lá de cima achou E. L. E. muito mal agradecido. E a frase que mais se ouvia era: o Kit Garante que o Kit Ensina A Pescar é o Kit Te Ajuda Mais que o Kit Dá O Peixe?
Ora, um projeto daqueles não poderia ir pro buraco só porque um tal-de-não-sei-o-quê não entendeu a grandiosidade da proposta. Afinal, se E. L. E. não queria, que desse lugar pra outro. Porque a fila não para de crescer e nunca falta quem queira. E pra dar um fim na história, resolveram dar a E. L. E. os últimos benefícios a que tinha direito: o Kit Faz Dormir o Sono Eterno e o Diabo Kit Carregue.



* O conto 'Kitiama para Sempre' foi publicado no livro Retalhos III, organizado pelo escritor Aroldo Pinheiro. 

domingo, 10 de julho de 2016

Poema esdrúxulo

saiu do facebook e foi à via pública

trajava calça jeans e blusa preta básica

seu rosto era pintado em estilo gótico

mas preferiu guardá-lo atrás de uma máscara

cantou e caminhou com a multidão de anônimos

gritou palavras de ordem no seu tom colérico

empunha uma bandeira megalomaníaca

e também um cartaz com uma frase irônica

a marcha foi contida a menos de um quilômetro

da entrada principal do Palácio Monárquico

deparou-se com a tropa e seu aparato bélico

com balas de borracha e spray de ardente líquido

escudos, cassetetes e bombas legítimas

que provocavam dor e instalavam o pânico

voltou-se contra aquele governo despótico

quebrou os vidros com um paralelepípedo

foi presa e enquadrada como sendo vândala

e apareceu de noite em programa fantástico

reparou que vivia situação esdrúxula

condenada à torturante pena máxima

de ver a reeleição de um desgoverno histórico

aliado a um congresso de antibióticos

preferia acabar como presa política

a apoiar ditadores fugidos do cárcere

* ‘Poema Esdrúxulo’ foi selecionado para publicação pela I Mostra Nacional de Poesia da Reforma Agrária "Versando Rebeldia" do Festival de Arte e Cultura da Reforma Agrária.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Deus para presidência (trecho do livro)


Depois de uma cassação, duas renúncias e um impeachment, a instabilidade política instalava-se no País. O povo saiu às ruas novamente por mudanças. Uma sensação e um grito ganhavam corpo, em meio àquele misto de indignação e desesperança: de que só Deus poderia resolver aquela situação.
Os grandes líderes da República, de todas as tendências partidárias e ideológicas, decidiram se reunir e atender ao clamor das ruas: conduziram, por unanimidade, Deus para presidente. Não havia nome mais oportuno: Ele gozava de popularidade e era relativamente bem quisto ou, pelo menos, tolerado pela maioria, da ala mais conservadora à mais radical.
Deus impôs uma condição: só assumiria por vontade soberana da totalidade da Nação. E assim foi: a voz do povo foi a voz de Deus.



















* Confira a história completa. Adquira o livro direto com o autor. Mande seu pedido para aldenor_pimentel@yahoo.com.br

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A multiplicação dos pães partidos

Depois de um dia intenso de trabalho, Emanuel e seus amigos atravessaram a ponte de bicicleta, distanciando-se da cidade, em busca de um lugar deserto para descansar. Chegando lá, no ponto mais alto, de onde era possível ver todo o povoado, perceberam que não estavam sós. Emanuel viu nos olhos da multidão o cansaço por levar a vida que levavam e teve compaixão daquele povo.
Alguns amigos de Emanuel lhe disseram que deveriam rezar para que aquelas pessoas mudassem de vida. Elas, que trabalhavam duro, de sol a sol, para receber um dinheiro pingado, que mal dava para sustentar tantas bocas em casa, que, de segunda a segunda, andavam de lá para cá, pela cidade, dentro de ônibus lotados, e que, depois disso tudo, só queriam saber de assistir à novela e dormir, para, como sempre, acordar bem cedo no outro dia.
Um amigo sugeriu que arrecadassem comida para doar àquela gente faminta, mas Emanuel fez diferente, porque sabia que isso não mataria a fome do povo. Emanuel perguntou a eles o que tinham e recebeu como resposta: “muita fome, pouco pão e muitos braços.” Sem contar inutilidades como promessas não cumpridas, um lado de uma sandália, chaveiros, camisas de candidatos e botons.
Emanuel, então, orientou o povo a se reunir em grupos, alguns menores, outros maiores, e que, nesses grupos, tudo fosse partilhado. E assim fizeram. Eles tinham tudo em comum: comida, bebida, suas dores e angústias, e sonhos, muitos sonhos de uma vida melhor.
Foi então que perceberam que juntos poderiam acabar com aquilo que lhes causava fome. Decidiram não confiar em quem só lhes dava cesta básica a cada quatro anos. O tempo passou e a vida deles mudou da água para o vinho. Milagre? Não, não foi milagre. Eles apenas resolveram colocar a mão na massa, em vez de esperar que o pão nosso de cada dia caísse do céu. Não só fizeram questão de decidir os nomes de quem estaria à frente do lugar, como passaram a participar ativa e cotidianamente das decisões sobre o que era melhor para o pedaço de chão em que pisavam.
No lugar de expressões de cansaço, apareceram sorrisos e esperança. E no lugar da fome, trabalho digno, crianças na escola, filhos na universidade. Mas nada aconteceu de um dia para o outro. E é por isso que até hoje eles seguem as palavras de Emanuel.

* O conto ‘A multiplicação dos pães partidos’ foi publicado na revista Pacheco.