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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

No meio do caminho, uma árvore

No meio do caminho tinha uma árvore. E a alguns metros dali, naquela mesma rua, tinha outra árvore no meio do caminho. Na ruela, calçada com paralelepípedo, as duas mangueiras ocupam a maior parte da via e os carros não passam em alta velocidade. A sombra das árvores vira estacionamento para os carros e abrigo para as famílias. Os vizinhos levam as cadeiras de casa para o meio da rua e passam horas jogando conversa fora. Debaixo das mangueiras, as crianças preferem brincar.

Foto: Dione Sampaio/FolhaWeb
Quem passeia por Boa Vista pode encontrar outras árvores no meio da rua. Do outro lado da cidade, a mangueira da Ataíde Teive exige que a avenida desvie o seu trajeto, fazendo uma leve curva à direita e à esquerda do canteiro, em forma de losango, construído em volta da árvore. A mangueira presenciou o crescimento da cidade, nas últimas décadas. A árvore cresceu. E Boa Vista cresceu em volta. 

As árvores no meio da rua lembram-nos que estamos na Amazônia, onde os imensos rios, ao passarem por dentro da mata fechada, desviam do que encontram pelo caminho, dando ao seu curso um sinuoso desenho. É como se a natureza vencesse o progresso e a vida seguisse o seu destino. 

* Esta crônica foi selecionada para publicação pela Jornada Literária 2017.

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terça-feira, 17 de julho de 2018

Teu futuro te condena


— Serás um assassino — dir-te-ei, recém-nascido, quando teus pais te trouxerem até mim. 

Lerei teu futuro, como o de todos os paridos naquela hedionda cidade, em uma porção do meu sangue. Descreverei em detalhes a teus genitores que, com um instrumento perfurocortante de fabricação caseira, vazarás os olhos de uma mulher de cabelos brancos e dela cortarás o pescoço. Ainda permanecerás ao seu lado, vendo-a sangrar em silêncio até a morte. 



Minha profecia arregalará os olhos de tua mãe e teu pai, que me questionarão como tal infortúnio seria possível. Passarão noites em claro, ao som do teu renitente choro. Praguejarão contra ti e contra Deus e questionarão a Ele que fizeram para merecer tamanha maldição.

Serás repulsivo aos teus pais, que, envergonhados de trazerem ao mundo um monstro, o abandonarão em lugar ermo qualquer. Tua sorte, ou não, será ser encontrado por uma família de operários, que encontrarão entre os panos em ti envoltos um bilhete onde se lerá tua condenação.

Aceitar-te-ão entre eles, titubeantes em crer naquelas palavras malditas e mal escritas. Seu pavor por ti perseguir-te-á enquanto dividirem o mesmo teto. Temerão a cada dia e a cada noite que a criatura diabólica que em ti habite enfim acorde.

Não suportarás viver sob eterna desconfiança e partirás para longe daqueles que nunca estiveram contigo. Procurarás abrigo nos mais distintos lugares, todavia em nenhum deles serás bem vindo. Por toda a cidade, saberão tua fama. E ninguém poderá ser condenado por não acolher criatura capaz de, no futuro, cometer ato tão abominável.

Ainda tentarás frequentar os bancos escolares, mas não te verão com bons olhos, nem os professores, tampouco teus colegas. Pelos corredores, serás objeto dos mais violentos trotes, em represália ao crime que, certamente, estarás por empreender. Nesses e em outros tantos momentos, perguntar-te-ás como poderias ser castigado por delito que ainda nem terás cometido.

Ao procurares trabalho, fechar-te-ão as portas. Os patrões temerão não só por sua segurança e de seus empregados, como também serem acusados de bandidos defensores de outro bandido. De certo, receariam a falência, ou pelo boicote dos consumidores ou por greve geral dos funcionários, indignados a serem obrigados a conviver com um assassino.

Nem as ruas restar-te-ão. Nelas, estarás eternamente abandonado pela sorte, sob o risco de acordar com o corpo em chamas, diante da multidão de sangue nos olhos.

Sem alternativa, ficarás às margens da cidade e viverás sob a proteção das sombras. Lá, encontrarás outros marginais. E até por eles serás rechaçado. Na melhor das hipóteses, tolerado. De tempos em tempos, serás sorteado como bode expiatório em que o bando descarregará todo o ódio que por eles a sociedade sentir.

E, assim, sempre que um novo crime ocorrer, ele te será atribuído. Em uma dessas vezes, uma garota de olhar doce e cabelos dourados e encaracolados será dada como desaparecida. Teus conterrâneos, convictos de tua culpa, procurar-te-ão, sedentos por justiça.

Apedrejarão e incendiarão o teu casebre, com o teu nome dito em coro, aos berros. Capturar-te-ão e anunciarão a tua sentença. Mas antes de morreres, a polícia chegará e te poupará do golpe fatal, menos por acreditar na tua inocência e mais pelo dever do ofício.

Mesmo atrás das grades, não estarás seguro. Serás torturado por longas horas pelos carcereiros. Temendo que a população volte à tua procura para terminar o que a polícia terá interrompido, renderás o plantonista e te evadirás do local.

Teu instinto levar-te-á ao bairro onde nasceste. Entrarás naquela tenda e a mulher de cabelos brancos, de costas, esperar-te-á, sentada, em uma cadeira de balanço.

— Peço que sejas rápido — dirá a mulher.

Aproximar-te-á dela e, com uma faca rudimentar, a ferirá em seus olhos. Em seguida, golpearás com o mesmo instrumento sua garganta. Em silêncio, até a morte, ela sangrará diante das tuas vistas. Se pudesse falar, dir-te-ia ela: “Não te condeno. Sei que, não por acaso, quiseste cegar meus olhos e calar minha voz. Ora, foi a partir deles que começou tua desgraça. Por causa do que vi e disse é que te tornaste o que és. E agora, tua sina está cumprida: és um assassino, como previ.”

* Este conto foi selecionado para publicação na Antologia Sombria. Para adquirir o livro completo, com histórias de vários autores, clique aqui.

** Este e outros contos estão na obra Livrinho da Silva. Para aquirir o livro, clique aqui.


Sobre o processo de criação deste conto, leia

O nascimento de um conto ou como pari ‘Teu Futuro te Condena’
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terça-feira, 10 de julho de 2018

Espreme que sai sangue

Ora, senhoras e senhores, de uma vez por todas está resolvido o problema no estoque no Hemocentro. Não há mais com o que se preocupar. É sangue de todo tipo. É O, é B, é A. Pensamento positivo, seja o fator RH positivo ou negativo. Quando for preciso, vai ter sangue na veia. E a solução, afinal, vem do jornal. 


Esqueçam as campanhas de sensibilização. Natal, Semana Santa, Carnaval. Doação de sangue em massa é coisa que já não se faz. O sangue que vai abastecer agora de forma permanente o Hemocentro vem da página policial dos jornais. Hemácias, plaquetas e glóbulos brancos. O jornal é fonte inesgotável. E fontes não faltarão. Os jornais vão doar-se até a última gota e vão cumprir até o fim o seu papel social. 

Que importa o que está escrito? O importante é que nas veias dos pacientes vai correr o sangue do jornal, misturado com a tinta da impressão. E a cada edição, há que se comemorar pelo papel que vai jorrar sangue e informação. E a morte no jornal vai salvar vidas. E outras vidas continuarão a fazê-lo amanhã. 

Viva as poças de sangue no asfalto! Viva os mortos na primeira página! Por acidente, publicaram uma matéria na semana passada em que o trânsito de tão tranqüilo só matou quatro. Mas fiquem calmos, senhores leitores, por que o Hemocentro não precisa mais de doadores. E o sangue todo, quem diria, vai sair do jornal. 

Cabeças podem rolar. Membros podem partir. Mas uma coisa é certa: ninguém vai morrer por falta de sangue. Vida longa ao jornal! Vida longa à página policial! Que morram as árvores para dar a luz ao papel! Afinal, árvores não sangram e muito menos sabem ler. Mas as pessoas sabem muito bem o que fazer: jornal. 

* Esta crônica foi publicada originalmente no livro Retalhos, organizado por Aroldo Pinheiro.

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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Dr. Google

Sabe aqueles dias em que acordamos com uma incômoda dor de cabeça, sem ter a mínima ideia de onde ela veio nem quando vai embora? Pois é. Foi assim comigo. O nosso primeiro pensamento é tomar um analgésico, mas fui prudente e resolvi consultar o Dr. Google. Sim, liguei o computador, abri o site de buscas e digitei meus sintomas. 




Apareceram tantas milhões de páginas que se eu fosse ler uma por uma morreria de velhice antes de encontrar cura. Fui o mais específico possível na nova pesquisa. Com menos resultados, resolvi consultar os do topo da lista. 

Na primeira página, eu me apavorei ao descobrir que estava com um câncer no cérebro e os dias contados. Fechei a página antes de chegar ao fim do primeiro parágrafo. Na segunda, fui informado que não era tão grave, mas que eu precisava fazer um tratamento com remédios controlados, prescritos por um neurologista. Resolvi buscar uma terceira opinião: a página orientava-me a fazer tratamento ortodôntico. Afinal, tratava-se de uma disfunção provocada pelo mau posicionamento da minha arcada dentária. 

Com três diagnósticos diferentes, decidi procurar um médico de carne e osso. Quem sabe ele desempataria o pleito, com seu voto de minerva? Ele perguntou como eu me sentia. Eu pensei em dizer "confuso", mas achei mais sensato relatar os sintomas que me afligiam a saúde e me levavam a estar ali. 

Ele me examinou: pareceu olhar meus olhos, meus ouvidos, minha garganta, meus batimentos e mais um monte de coisas que eu nem faço ideia. Perguntou também sobre meus hábitos, histórico de doenças na família e tantas outras coisas que até parecia se tratar de uma investigação criminal em que eu era o principal suspeito. 

No fim, ele disse que estava tudo bem comigo e que a causa provável da minha dor de cabeça era o excesso de horas que eu passava diante do computador. Era vista cansada. Eu deveria repousar, evitar preocupações e fazer atividades prazerosas. Aliviado, mostrei-me agradecido ao médico. Antes de sair, ele me perguntou quem o havia indicado para mim. Eu disse que ninguém específico. 

— Como você me encontrou, então? 

— No Google, doutor! 

* Este e outros contos estão na obra Livrinho da Silva. Para aquirir o livro, clique aqui.

** Este conto foi selecionado para publicação pelo Concurso Literário Internacional da Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande 2015.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Feito um conto de fadas

Era uma vez, num lugar não muito distante daqui, uma linda jovem com nome de princesa, igual a tantas outras. Sua pele não era clara como a neve, seus cabelos não lembravam cachinhos dourados, tampouco usava capuz na cabeça. Sempre avoada, a jovem parecia viver num conto de fadas. 

Desde pequena, sonhava com o príncipe encantado. Certa vez, avistou-o no horizonte, vindo em sua direção, montado num cavalo branco. O príncipe aproximou-se e desceu do cavalo. Beijou-lhe a mão como um cavalheiro e, antes de se abaixar para pegar o lenço que caíra da mão dela, desapareceu de relance. Ali, viu seu castelo se desfazer. Sentiu-se perdida como João e Maria. Foi quando acordou do sonho. 

Ainda sonolenta, dirigiu-se até o banheiro. Lá, olhou-se no espelho e viu o rosto de uma mulher que aparentava ter vivido pelos menos cem anos. Perguntou ao espelho sobre sua beleza, mas ele não respondeu. A jovem desejava a ajuda de uma fada madrinha ou, ao menos, de uma bruxa que lhe desse uma maçã envenenada, para pôr fim àquela história. Mas a única coisa que conseguiu, depois de soltar um grito de desespero, foi acordar daquele pesadelo. 

Acordou e olhou em volta. Ao seu lado dormia um desconhecido. Era seu marido. Teve medo de tentar acordá-lo com um beijo e transformá-lo num sapo ou num patinho feio. O relógio marcava meia-noite. Foi quando a magia se desfez. 

Acordou novamente, agora sozinha sobre a cama. Do lado de fora da casa, uma voz a chamava pelo nome. Ela foi até a sacada. Pensou que, se fosse seu amado e ela tivesse tranças, as jogaria para ele. Olhou pela janela e não viu ninguém. Não era dali que vinha a voz. Correu até a porta. Abriu-a e lá estava ele. Não era o lobo mau. Era o homem que amava e que a amava. Ele trazia nas mãos uma argola de metal, que se encaixou perfeitamente no dedo anelar da mão direita dela, como o sapato de cristal de Cinderela. Da boca dele, ela ouviu estas palavras: 

— Confie em mim. Não sei se viveremos felizes para sempre, mas viveremos felizes. 


* Este e outros contos estão na obra Livrinho da Silva. Para aquirir o livro, clique aqui.

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sexta-feira, 30 de março de 2018

Anel de Lata

Quando criança, ele colocava no dedo um lacre de lata de refrigerante e brincava que era seu anel de doutor. Décadas depois, após receber o diploma de médico, no fim da cerimônia de formatura, sua mãe lhe pôs em um dos dedos um anel dourado com uma pedra esverdeada. A mulher ostentava um vestido simples, mas digno, e o orgulho de ver Lázaro se tornar o primeiro médico da família.

Na hora, ouviam-se risos de galhofa vindos da primeira fileira do auditório, onde estavam os mais novos médicos da cidade, de beca, por cima de black ties feitos sob medida. Eram os mesmos que no primeiro dia de aula na faculdade riram de Lázaro, por ser ele o único da turma a não trajar jaleco branco e ainda chegar à sala com respingos de cimento na calça jeans surrada.

Na saída da cerimônia, lá estavam reunidos os mesmos de sempre. Quando Lázaro e sua mãe passaram próximo ao grupo, uma voz perguntou capciosamente:

— Lázaro, e aquele anel... é de ouro ou de lata?

A pergunta foi seguida de uma longa gargalhada geral da turma. Lázaro olhou a mãe, visivelmente constrangida. Olhou o anel que acabara de ganhar e viu nele o reflexo de si próprio ao lado dela. Aquela imagem, na sua cabeça, se fundiu à outra, do passado: o jovem enxergou-se, ainda criança, acordando cedo para ir à escola com a mãe. O colégio ficava a quilômetros de casa. Lázaro passava o dia todo lá. Antes de anoitecer, ela voltava para pegá-lo, na mesma bicicleta adaptada para coletar latas de alumínio. Depois de um longo dia de trabalho, o meio de transporte e sustento da família estava repleto de latinhas.

Lázaro subia no guidão e, ao longo do trajeto, contava empolgado o que aprendera naquele dia. Em casa, ajudava a amassar as latinhas que a mãe vendia para a reciclagem.

Foi graças a esse dinheiro que Lázaro ganhou seu primeiro tênis, seu primeiro caderno e comeu salada pela primeira vez. Foi com aqueles trocados que ele pôde pagar, por anos, o ônibus para frequentar o Ensino Médio e depois garantir a inscrição no vestibular e comprar os livros recomendados pelos professores da graduação.

Inegavelmente, a lata fazia parte de sua vida mais do que ele pensava: estava em tudo o que Lázaro tinha, sabia e havia se tornado. Ia além dos copos de alumínio que sua mãe fabricava artesanalmente para juntos tomarem café todas as manhãs. Não fossem as duas, sua mãe e a lata, Lázaro não teria chegado tão longe.

Com a pergunta do “colega” a lhe martelar a mente, ele segurou forte a mão da mãe e ergueu a cabeça. Olhou nos olhos daquele que lhe perguntava se seu anel era de ouro ou de lata e respondeu:

— É de lata, com muito orgulho!

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Livrinho da Silva

Sinopse: Livrinho da Silva traz mais de vinte contos que se desenvolvem em torno do universo da leitura, do livro, da figura do escritor, da experiência da escrita, etc. Podem ser histórias de vidas transformadas a partir do contato com o livro e da experiência da leitura ou que lancem novos olhares sobre a presença do ler e do escrever na nossa vida. Alguns textos desta coletânea foram premiados em concursos literários nacionais, com destaque para os contos ‘Tráfico’ e ‘O Dia em que Meus Escritos Já Não Eram Meus’, respectivamente, primeiro colocado no 5º Prêmio Literário Sérgio Farina, categoria Prata da Casa, da Prefeitura de São Leopoldo, e terceiro no I Concurso Literário ICBIE 2015.

Formato: 10,7 x 17,8 cm
Número de páginas: 72
Editora: Catarse

Compre seu exemplar na Amazon ou peça o seu pelo e-mail: aldenor_pimentel@yahoo.com.br

Para ler alguns contos do livro, acesse:
Olhar
Tráfico
O dia em que meus escritos já não eram meus

Veja post sobre outro livro do mesmo autor:
Deus para presidência (trecho do livro)

sábado, 23 de setembro de 2017

Novos Franciscos

No coração da Amazônia, o tiro acerta o alvo. O corpo de Francisco vai ao chão, feito árvore tombada. Xapuri chora pelo líder seringueiro. “É o fim”, pensam seus algozes.

Os anos seguintes são de progresso. A ordem é não deixar uma árvore em pé. A floresta precisa dar lugar ao lucro.

Pouco tempo depois, o trabalho está quase completo. Resta somente uma seringueira, nascida intrigantemente no local exato onde Francisco caiu ferido.

Na hora marcada, as máquinas estão posicionadas. Dado o sinal, avançam em direção à árvore. Aos poucos, vai chegando uma gente do povo, que se coloca entre a seringueira e os tratores, para empatar a derrubada.

Mesmo sob ameaça, o povo não arreda o pé. Ouve-se um tiro e, no meio da multidão, um corpo cai. Feito látex a escorrer da árvore amazônica, o sangue do ferido toca o chão e, dali, se ergue outra imponente seringueira.

Perplexos, os jagunços voltam a atirar. E, a cada corpo que cai, nasce uma árvore. E de cada árvore, um novo Francisco. O que os algozes de Chico não sabiam é que balas não matam sonhos.


Viva! A floresta está viva.


* O conto ‘Novos Franciscos’ foi publicado na revista Marinatambalo (3ª ed., v. 2, set. 2017) e na antologia 'Do Nascimento ao Epitáfio'. Foi ainda selecionado pelo Concurso Literário Internacional “Natureza 2017-2018”.


Outros contos do mesmo autor: 
As moedas encontradas e o homem perdido
Obra-prima
O dia em que meus escritos já não eram meus
Olhar
Vermelho coração
Tráfico
Kitiama para sempre
Era Todo Ouvidos (ou O Ouvidor Real)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Era Todo Ouvidos (ou O Ouvidor Real)

Depois de décadas de tirania, o imperador e rei estava finalmente morto. O anúncio, feito pelo porta-voz da Coroa, do púlpito do Palácio, foi recebido pela multidão com silenciosos vivas. Era o fim de uma era.
O imperador não deixara filhos. O trono estava vazio. Com apreensão, aguardava-se o nome do sucessor. Pelos corredores do Palácio, especulava-se, aos cochichos, quem seria o dito-cujo. Em seu testamento, Sua Majestade, sem explicitar os motivos, deixara o trono ao menos cotado da Corte: o ouvidor.
O novo imperador, ao falar, pela primeira vez, à multidão, prometeu novos tempos. O discurso foi ouvido com intensos aplausos e sonoros vivas. E como não ver o amanhecer com sorriso nos olhos, quando nosso futuro está nas mãos daquele que sempre nos ouviu, mesmo quando a ordem era endurecer?
Como ouvidor, do nascer ao pôr-do-sol, do primeiro ao último das filas que se formavam em volta do Palácio, por todos aqueles anos, ele recebia, um a um, em sua sala, e ouvia com atenção, as mais distintas queixas e lamúrias.
Um dia, um triste acontecido fez-me ir até o mais novo imperador. Como sempre, do fim da fila, não se viam as portas do Palácio. Terminada a longa espera, contei a Sua Majestade que um dos seus homens, ao coletar impostos, me levou além do devido. Dos cinco sacos de estopa cheios de frutos que eu colhera por aqueles tempos, deixou-me, não os quatro, como de costume, mas tão só um.
Como eu esperava, o imperador, demonstrando insatisfação com o que ouvira, mandou chamar o tal homem. Cobrou-lhe explicações e o repreendeu na minha presença. Por fim, ordenou-lhe que me devolvesse o que era meu por direito.
— Sim, Majestade — acatou o súdito, sem levantar a vista.
O homem foi lá dentro e, antes que voltasse com minha colheita, agradeci ao imperador o que fizera. O coletor de impostos devolveu-me meus quatro sacos de estopa, aparentemente vazios. Olhei dentro e não vi mais que dois ou três frutos em cada um deles. Desconcertado, sorri um sorriso amarelo e pensei: “Se fossem outros tempos, nem isso eu teria.” Voltei para casa, com os sacos de estopa quase vazios sobre os ombros.
— Para começar, está bom. Vai melhorar — disse eu a mim mesmo, resignado.
Não tardou muito e aquele triste episódio me voltou a acontecer: o coletor de impostos levara-me novamente mais do que devia. Aliás, dos cinco sacos de estopa com frutos, agora ele me deixara a mísera metade de um dos sacos, e não um saco repleto de frutos, como outrora.
Tomado pela ira, repeti o ritual. Fui ao Palácio. Após enfrentar a interminável fila, relatei o ocorrido ao imperador, que esbravejou indignado contra o coletor de impostos, que, por sua vez, sem levantar a vista, me trouxe meus sacos de estopa vazios, ou quase.
Enquanto o homem fora pegar o imposto a mais que de mim coletara, pude ver, pela porta entreaberta, a sala de jantar do Palácio. A mesa estava posta. Deduzi que a ceia já esperava o imperador. Olhei com mais atenção e meus olhos encontraram, entre as iguarias à mesa, grande porção dos frutos que eu mesmo colhera e que me foram tomados indevidamente. Compreendi que o imperador não só sabia dos atos reprováveis do coletor de impostos, como era o principal beneficiário deles. Foi aí que não consegui mais conter minha ira.
— Majestade... — da minha boca escapulia o vocativo real.
— Pois não, súdito meu.
— Perdão, Senhor, mas preciso lhe dizer algo que me incomoda e o atinge diretamente.
— Sou todo ouvidos e assim será. Fale.
Como me fora concedido o direito à palavra, externei o que notara e as impressões acerca das injustiças que me eram infligidas, sob as barbas do imperador.
— Desde já, entristece-me, Majestade, pensar na possibilidade de que, aquele em quem depositamos nossas esperanças, tornou-se nosso algoz. Dói-me menos a barriga vazia que tomar ciência de que vossos banquetes sejam regados pela nossa fome; que vossa gula se alimente da nossa carência; que o que sobre em vossa mesa, nos falte; que, daquilo que Vossa Majestade esbanje, nos restem não mais que migalhas; que vosso deleite seja nossa dor.
Acreditava eu que, sendo o imperador homem tão justo, reconheceria as próprias falhas e repararia os malfeitos. De seu lado, Sua Majestade não desviou o olhar, tampouco me interrompeu uma única vez. Seu semblante conservava-se sereno o tempo todo. Após ouvir meu desabafo, chamou a guarda e voltou a me escutar: aos berros, eu clamava que cessassem em mim aquela horrenda tortura, em vão. Implorei que, ao menos, meus carrascos abreviassem minha dor e me matassem sem demora, mas eles não me deram ouvidos.
Não bastassem os socos e pontapés por todo o corpo, por fim, cortaram-me a língua. Minha boca já não articulava palavra alguma: agora, eu era, tão só, medo, sangue e dor. Como bom ouvinte que sempre fora, o imperador ouvia tudo de perto. Ouviu-me até o fim. Até meu fim, foi todo ouvidos.

* O conto foi selecionado para publicação I Edital da Revista Literária Digital Motus (Movimento Literário Digital).

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Kitiama para sempre



Quando E. L. E. nasceu, não chorou. Sorriu. De certo sabia o que viria pela frente. E. L. E. seria a cobaia, melhor dizendo, o grande felizardo a participar de um projeto-piloto que o beneficiaria por toda a vida com programas sociais do Governo.
A ideia do projeto saiu da mente brilhante do grande idealista Governador S. R. Kitiama. Governador atualmente. Porque ele já tinha sido prefeito, deputado, senador e, ao que tudo indicava, tinha tudo pra ser o próximo presidente da República.
E nada mais justo que homenageá-lo dando aos projetos sociais o nome dele, que era o pai da ideia. E assim, Kitiama foi criando as ações de Governo: Kit Educa, Kit Emprega, Kit Aposenta. E se o projeto-piloto desse certo, num futuro bem próximo, não teria quem no mundo não fosse contemplado com o programa, batizado de Kit Ajuda Eternamente.



E. L. E. mal abriu os olhos e já lhe puseram na boca uma teta cheia de leite. Era a primeira ação de Governo que o beneficiava: o Kit Amamenta. Depois veio o Kit Põe Pra Arrotar, o Kit Acalenta, o Kit Aquece e o Kit Banha.
E a cada passo que E. L. E. dava, sentia o apoio incondicional do Kit Segura Pela Mão, do Kit Guia e até do Kit Deixa Andar Com As Próprias Pernas. Mas E. L. E. queria mais. E o Kit Deu. E o Kit Fez Pensar Que Aquilo Nunca Mais Ia Ter Fim.
E E. L. E. percebeu que não era igual a todo mundo, porque só com E. L. E. estava o Kit Faz Diferente. Mas aí, E. L. E. pensou: do Kit Adianta Ter Tudo Kit Dá Na Telha se nada disso é o Kit Faz Feliz?
Mas isso tudo já tava ficando muito perigoso. E, pra ser sincero, o pessoal lá de cima achou E. L. E. muito mal agradecido. E a frase que mais se ouvia era: o Kit Garante que o Kit Ensina A Pescar é o Kit Te Ajuda Mais que o Kit Dá O Peixe?
Ora, um projeto daqueles não poderia ir pro buraco só porque um tal-de-não-sei-o-quê não entendeu a grandiosidade da proposta. Afinal, se E. L. E. não queria, que desse lugar pra outro. Porque a fila não para de crescer e nunca falta quem queira. E pra dar um fim na história, resolveram dar a E. L. E. os últimos benefícios a que tinha direito: o Kit Faz Dormir o Sono Eterno e o Diabo Kit Carregue.



* O conto 'Kitiama para Sempre' foi publicado no livro Retalhos III, organizado pelo escritor Aroldo Pinheiro.