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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Mergulharei no teu tacacá
até que a tua folha de jambu
deixe a minha língua dormente


* Este poema foi selecionado para a Antologia Jaçanã – Poética sobre as Águas, da Pará-grafo Editora.

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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Memórias de natal


O ano é 3025 d.C. Não sei exatamente o que isso significa. Alguém, certa vez, me disse que somos a geração sem memória. Nem lembro mais por quê. Talvez seja o excesso de informação.

É véspera de natal. Não há enfeites nos prédios, na frente das casas, nem nas árvores. Aliás, árvores restam poucas pela cidade. As ruas estão desertas. Não é por menos. Ruas são lugares perigosos. Por isso, é proibido permanecer nelas. Por aqui, ficam somente aqueles de muita coragem ou que muito necessitam. Este é o meu caso. Meu nome é Nicolau. Uma homenagem ao meu avô, o último Papai Noel de shopping da família.

Com o avanço da tecnologia, as pessoas deixaram de ir aos lugares fazer compras. As compras passaram a ir até elas. Os shoppings ficaram obsoletos e vô Nicolau perdeu o emprego. Minha avó, com quem fui criado, dizia que as crianças já não acreditavam em Papai Noel, o que acabou com o espírito do natal. Até hoje, não entendo o que ela quis dizer com isso. Afinal, as pessoas continuam a gastar muito nas festas de fim de ano, como sempre foi.

Meu sonho era ser médico, mas não passo de um andarilho, a perambular pelas ruas, vestido com a antiga fantasia de Papai Noel do meu avô. Minha vida é pedir moedas dos poucos que encontro pelo caminho.

Algo me diz que hoje será um dia incomum. Talvez por causa da manifestação que, pelo que ouvi dizer, será aqui na Praça Central. Motivos para protestos sobram, mas há também muito medo do que possa acontecer a quem deles participe.

De repente, a praça fica lotada. A maioria parece ser de jovens, que cobrem o rosto com máscaras de LED. A tropa de choque chega logo em seguida. Cada soldado na sua nave. Há uma gritaria geral, seguida de tumulto, empurra-empurra e correria. A tropa joga água salinizada na multidão e aciona o dispositivo de choque. A maioria cai desmaiada. Alguns conseguem fugir. Terminado o trabalho, a tropa parte em revoada.

Aproximo-me dos feridos, para ver como posso ajudar. Meu Deus! Entre eles há uma grávida! A jovem de pele negra e olhar determinado reclama de fortes dores. Com a ajuda de um homem de barba e cabelos grisalhos, pego-a no colo e a levo a um lugar seguro perto dali. À sombra de uma árvore, forro o chão com a bandeira lilás que a jovem trazia na mão direita.

— O que você estava fazendo, grávida, naquela manifestação? — questiono-a.

— Era necessário — responde ela.

Penso em dizer que nunca vira em alguém tamanha loucura, mas digo ‘coragem’.

— Não há mais tempo para conversa. Ela está em trabalho de parto — interrompe-nos o ancião, pelas mãos de quem o bebê viria ao mundo, minutos depois.

O homem confidencia-nos que aprendera com a mãe, viúva, a fazer partos. Ela era uma mulher forte que, além de ajudar crianças a nascerem, dedicava a vida a tratar enfermidades dos desenganados que a procuravam.

— Qual o seu nome, menina? — pergunta o ancião.

— Maria — ela responde.

— Parabéns, Maria. Bendito é o teu filho! — diz o homem, ao envolver o menino na faixa em que se lia ‘Pelos direitos das mulheres’. Ao olhar Maria nos olhos, o ancião diz que ela lembra outra mulher de muita coragem, e nos conta uma história que me parece tão familiar, apesar de nunca tê-la ouvido.

Fala-nos de uma jovem também chamada Maria, que vivera há muito tempo bem longe dali. Ela estava noiva quando foi chamada para ser a mãe do filho de Deus, aquele que, ao ouvir o clamor do seu povo oprimido, desceria do céu para libertá-lo. Maria sabia que aquilo era arriscado. Temia chorar as dores de ver o filho morto por desafiar os interesses dos poderosos. Antes ainda, corria o risco de ser apontada nas ruas como mãe solteira e ser apedrejada até a morte, por trazer no ventre um filho fora do casamento. Mesmo assim, aceitou a missão.

O noivo de Maria era um homem bom e a amava muito. Não deixaria que o pior lha acontecesse. Aceitou a noiva e o filho que ela trazia no ventre.

Por conta de um governo tirano, mesmo com Maria grávida, foram obrigados a deixar a própria casa. Como retirantes, sem lugar para repousar a cabeça, Maria deu à luz. O menino foi visitado por humildes trabalhadores das redondezas e gente vinda de longe, que era acusada de feitiçaria por olhar as estrelas e prever o futuro.

Anos mais tarde, aquele menino mudaria para sempre os rumos da História. Daria a maior prova de amor à humanidade e uma grande lição a todos nós: amar uns aos outros como ele nos amou.

Ao ouvir aquelas palavras, a jovem Maria e eu, ali debaixo da sombra daquela árvore, sentimos arder nosso coração. Da minha parte, por achar que a história não poderia cair no esquecimento, resolvi levá-la, aonde quer que eu fosse, a quem precisasse dela.

Agradecida, a jovem Maria resolveu dar ao recém-nascido o nome daquele que salvara a vida de seu filho.

— Como se chama, bom homem? — perguntou ela ao ancião. Com um olhar que nos inspirava, ele respondeu com mansidão:

— Eu sou... Jesus.


* Este conto foi selecionado para publicação na antologia Mirage 2.


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Passado

Um homem de terno olha o relógio, no lado externo de uma sorveteria. Outro, de roupa de academia, passa ao lado. Para, franze a testa e se vira para o primeiro.

— Caralho, Marcão! Quanto tempo, bicho. Todo na beca! Nem parece aquele loucão que pegava as menininhas nas festas.

O homem de terno olha para trás e, depois, de volta para o interlocutor.

— Você está falando comigo?

— Porra, Marcão! Claro. Lembra não? A gente apostava quem se dava melhor, mas tu sempre se superava. Cara, tu pegou até a dona do puteiro. Tu é foda mermo!

— Eu?!

— É, Marcão. Agora vem dar uma de santinho? Pra cima de mim, pô?! Deixa disso.

— Tem certeza que não está me confundindo? — pergunta, enquanto o outro mexe no celular.

— Ei, vamo tirar uma selfie? Não posso perder essa oportunidade de impressionar a galera daquela época. Marcão, Marcão, o terror das xoxotas. Ê, bagaceira! — fala, dando um soco de leve no braço do outro. — A gente tem um grupo, sabia? Por que você não tá? Tá todo mundo lá, pô: o Pedrão, o Serjão, o Paulão — diz, contando nos dedos. Depois, fica ao lado do interlocutor e tira foto, mostrando os músculos para a câmera. — Mas o quê que aconteceu mermo, Marcão! Tu tá muito certinho, pô. Virou pastor, foi?

— De modo algum, meu caro — responde, enquanto um terceiro chega e lhe dá um selinho.

O outro se afasta do casal.

— Oi, amor. Desculpa o atraso — fala e olha para o homem de regata. — Quem é? De longe, pareceu ser um amigo de longa data.

O homem de terno faz menção de responder, mas é interrompido pelo outro.

— Não, não. Eu só ia pedir uma informação: se eu pegar essa rua e ir direto, eu vou dar onde mermo?

* Este conto foi selecionado para publicação na antologia Mnemephile.

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terça-feira, 17 de julho de 2018

Teu futuro te condena


— Serás um assassino — dir-te-ei, recém-nascido, quando teus pais te trouxerem até mim. 

Lerei teu futuro, como o de todos os paridos naquela hedionda cidade, em uma porção do meu sangue. Descreverei em detalhes a teus genitores que, com um instrumento perfurocortante de fabricação caseira, vazarás os olhos de uma mulher de cabelos brancos e dela cortarás o pescoço. Ainda permanecerás ao seu lado, vendo-a sangrar em silêncio até a morte. 



Minha profecia arregalará os olhos de tua mãe e teu pai, que me questionarão como tal infortúnio seria possível. Passarão noites em claro, ao som do teu renitente choro. Praguejarão contra ti e contra Deus e questionarão a Ele que fizeram para merecer tamanha maldição.

Serás repulsivo aos teus pais, que, envergonhados de trazerem ao mundo um monstro, o abandonarão em lugar ermo qualquer. Tua sorte, ou não, será ser encontrado por uma família de operários, que encontrarão entre os panos em ti envoltos um bilhete onde se lerá tua condenação.

Aceitar-te-ão entre eles, titubeantes em crer naquelas palavras malditas e mal escritas. Seu pavor por ti perseguir-te-á enquanto dividirem o mesmo teto. Temerão a cada dia e a cada noite que a criatura diabólica que em ti habite enfim acorde.

Não suportarás viver sob eterna desconfiança e partirás para longe daqueles que nunca estiveram contigo. Procurarás abrigo nos mais distintos lugares, todavia em nenhum deles serás bem vindo. Por toda a cidade, saberão tua fama. E ninguém poderá ser condenado por não acolher criatura capaz de, no futuro, cometer ato tão abominável.

Ainda tentarás frequentar os bancos escolares, mas não te verão com bons olhos, nem os professores, tampouco teus colegas. Pelos corredores, serás objeto dos mais violentos trotes, em represália ao crime que, certamente, estarás por empreender. Nesses e em outros tantos momentos, perguntar-te-ás como poderias ser castigado por delito que ainda nem terás cometido.

Ao procurares trabalho, fechar-te-ão as portas. Os patrões temerão não só por sua segurança e de seus empregados, como também serem acusados de bandidos defensores de outro bandido. De certo, receariam a falência, ou pelo boicote dos consumidores ou por greve geral dos funcionários, indignados a serem obrigados a conviver com um assassino.

Nem as ruas restar-te-ão. Nelas, estarás eternamente abandonado pela sorte, sob o risco de acordar com o corpo em chamas, diante da multidão de sangue nos olhos.

Sem alternativa, ficarás às margens da cidade e viverás sob a proteção das sombras. Lá, encontrarás outros marginais. E até por eles serás rechaçado. Na melhor das hipóteses, tolerado. De tempos em tempos, serás sorteado como bode expiatório em que o bando descarregará todo o ódio que por eles a sociedade sentir.

E, assim, sempre que um novo crime ocorrer, ele te será atribuído. Em uma dessas vezes, uma garota de olhar doce e cabelos dourados e encaracolados será dada como desaparecida. Teus conterrâneos, convictos de tua culpa, procurar-te-ão, sedentos por justiça.

Apedrejarão e incendiarão o teu casebre, com o teu nome dito em coro, aos berros. Capturar-te-ão e anunciarão a tua sentença. Mas antes de morreres, a polícia chegará e te poupará do golpe fatal, menos por acreditar na tua inocência e mais pelo dever do ofício.

Mesmo atrás das grades, não estarás seguro. Serás torturado por longas horas pelos carcereiros. Temendo que a população volte à tua procura para terminar o que a polícia terá interrompido, renderás o plantonista e te evadirás do local.

Teu instinto levar-te-á ao bairro onde nasceste. Entrarás naquela tenda e a mulher de cabelos brancos, de costas, esperar-te-á, sentada, em uma cadeira de balanço.

— Peço que sejas rápido — dirá a mulher.

Aproximar-te-á dela e, com uma faca rudimentar, a ferirá em seus olhos. Em seguida, golpearás com o mesmo instrumento sua garganta. Em silêncio, até a morte, ela sangrará diante das tuas vistas. Se pudesse falar, dir-te-ia ela: “Não te condeno. Sei que, não por acaso, quiseste cegar meus olhos e calar minha voz. Ora, foi a partir deles que começou tua desgraça. Por causa do que vi e disse é que te tornaste o que és. E agora, tua sina está cumprida: és um assassino, como previ.”

* Este conto foi selecionado para publicação na Antologia Sombria. Para adquirir o livro completo, com histórias de vários autores, clique aqui.

** Este e outros contos estão na obra Livrinho da Silva. Para aquirir o livro, clique aqui.


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terça-feira, 10 de julho de 2018

Espreme que sai sangue

Ora, senhoras e senhores, de uma vez por todas está resolvido o problema no estoque no Hemocentro. Não há mais com o que se preocupar. É sangue de todo tipo. É O, é B, é A. Pensamento positivo, seja o fator RH positivo ou negativo. Quando for preciso, vai ter sangue na veia. E a solução, afinal, vem do jornal. 


Esqueçam as campanhas de sensibilização. Natal, Semana Santa, Carnaval. Doação de sangue em massa é coisa que já não se faz. O sangue que vai abastecer agora de forma permanente o Hemocentro vem da página policial dos jornais. Hemácias, plaquetas e glóbulos brancos. O jornal é fonte inesgotável. E fontes não faltarão. Os jornais vão doar-se até a última gota e vão cumprir até o fim o seu papel social. 

Que importa o que está escrito? O importante é que nas veias dos pacientes vai correr o sangue do jornal, misturado com a tinta da impressão. E a cada edição, há que se comemorar pelo papel que vai jorrar sangue e informação. E a morte no jornal vai salvar vidas. E outras vidas continuarão a fazê-lo amanhã. 

Viva as poças de sangue no asfalto! Viva os mortos na primeira página! Por acidente, publicaram uma matéria na semana passada em que o trânsito de tão tranqüilo só matou quatro. Mas fiquem calmos, senhores leitores, por que o Hemocentro não precisa mais de doadores. E o sangue todo, quem diria, vai sair do jornal. 

Cabeças podem rolar. Membros podem partir. Mas uma coisa é certa: ninguém vai morrer por falta de sangue. Vida longa ao jornal! Vida longa à página policial! Que morram as árvores para dar a luz ao papel! Afinal, árvores não sangram e muito menos sabem ler. Mas as pessoas sabem muito bem o que fazer: jornal. 

* Esta crônica foi publicada originalmente no livro Retalhos, organizado por Aroldo Pinheiro.

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Antologia do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros

Para acessar o livro com poemas e contos premiados no II Concurso Literário Internacional Palavradeiros, além de textos literários de convidados, clique na foto abaixo.


Para mais informações, clique no regulamento do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros.