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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Mergulharei no teu tacacá
até que a tua folha de jambu
deixe a minha língua dormente


* Este poema foi selecionado para a Antologia Jaçanã – Poética sobre as Águas, da Pará-grafo Editora.

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A luta do povo de Santxiê contra o exército de concreto armado

Kamuu tira do pescoço o crachá de funcionário público e bate o ponto. Passa pela catraca na saída da repartição e, na esquina, pega o ônibus onde se lê Noroeste. Desabotoa o nó da gravata e, pela janela, vê o cinza do concreto curvilíneo do Plano Piloto se transformar, pouco a pouco, no verde queimado da vegetação rasteira e de arbustos retorcidos do cerrado, a disputar espaço com arranha-céus.

Em pouquíssimos minutos, solicita parada, desce e caminha alguns quilômetros, até chegar diante de um casal de ipês que, juntos, formam um portal verde. Kamuu tira os sapatos, pede permissão dos espíritos e, descalço, atravessa o portal, que o leva a outro universo. Do lado de lá, seus pés nus tocam o chão sagrado. Ele respira fundo, ouve o canto dos pássaros e sorri: está no Santuário dos Pajés.

Ali, onde não há reis ou presidentes, nada sobra ou falta, tampouco há por que se apressar, o tempo é suspenso: o presente anda de mãos com o passado e o futuro. Naquele lugar, colhe-se o que se planta, todos se olham nos olhos, e é possível enxergar o horizonte.

Kamuu nem dá o segundo passo sem ouvir os gritos eufóricos dos filhos, que correm em sua direção e o abraçam. Arrastam-no pelos braços e o levam até a fogueira, onde os demais o aguardam, enquanto entoam cantorias. Logo, passam-lhe o violão e ele toca canções que o fazem lembrar os irmãos que partiram. Os mais jovens registram tudo em fotos e vídeos e já postam na rede.

Entre uma música e outra, Kamuu conta a história do bravo guerreiro Santxiê, que lutou contra grandes inimigos para que pudessem repousar agora sobre aquela terra. A sensação é de que Santxiê está ali. E está mesmo! Kamuu o convida a se juntar à roda e as crianças pedem ao grande guerreiro que conte novamente sobre a batalha pelo Santuário.

Os olhos dos curumins não piscam. Ninguém quer perder um segundo dos passos do guerreiro que enfrentou espíritos funestos, gigantes de aço e exércitos de concreto armado.

Santxiê, então, conta que ele e os parentes, depois de muito caminhar, decidiram que ali seria seu refúgio, porque foi onde reencontraram o espírito dos ancestrais. No cerrado, a meia distância da capital de concreto em construção, podiam falar a própria língua, cantar como os antigos e dançar com os espíritos da natureza.

Foto: Mídia Ninja

A casa foi feita com uma grande abertura no teto, por onde era possível ver as estrelas e se comunicar com os parentes mais distantes. Ali viviam em festa.

Mas, um dia, o toré foi interrompido por um ronco misterioso e assustador. Os mais velhos procuravam acalmar as crianças e as levaram seguras para dentro de casa. Os primeiros raios da manhã mostraram uma grande clareira no campo e estranhas e enormes pegadas que não poderiam ser feitas por nenhum dos animais que eles conheciam.

Nos dias seguintes, começaram a brotar do chão estacas de madeira pelos arredores. Eles as arrancavam pela manhã, mas as estacas reapareceriam ao anoitecer.

O pior estava por vir. Passados uns dias, foram até eles criaturas sinistras, vestidas como se nevasse, acompanhadas por uma tropa de homens trajados todos iguais, feito robôs fabricados na mesma fôrma.

Deixaram uns papéis em que se liam ordens para que abandonassem aquelas terras, onde seria edificado o futuro. Na mesma hora, o povo de Santxiê disse que haviam criado raízes ali e, se arrancados do chão, morreriam. Estava declarada a guerra.

Começaram a chegar máquinas e máquinas a derrubar árvores centenárias e o que mais estivesse pela frente. O povo pintou-se de urucum e preparou o arco e flecha. Do outro lado, as armas cuspiam fogo. Os filhos do Santuário resistiam bravamente: à dor, à lagrima e ao medo. Mas não eram páreo para os monstros de metal e concreto, e suas garras de arame farpado.

Os inimigos davam a guerra por vencida, quando, de repente, viram aparecer mais e mais gente de várias tribos e todos os cantos. Não entendiam de onde vinha aquele povo. Mal sabiam eles que o mundo inteiro tomara conhecimento da ameaça que sofria o Santuário e muitos foram somar força.

A abertura no teto da casa mantinha-os em sintonia com outras espalhadas por diferentes partes do planeta. E era exatamente por aquela fenda que chegava a multidão de guerreiros.

De mãos dadas e peito aberto, atentos à voz de Santxiê, enfrentaram o exército inimigo. Não estavam sós. Eram muitos. Eram muito fortes. As máquinas viram nos olhos do povo a vida e a vontade de viver. Acuadas, partiram em fuga. Para festejar a vitória, o povo de Santxiê fez uma grande roda e dançou e dançou por horas e horas.

Depois de ouvir a história, Kamuu e os outros se levantam para celebrar a vida e também dançam de mãos dadas em volta da fogueira. É possível ler no rosto de todos a alegria por estarem ali.

— Mas devemos nos manter vigilantes — alerta Santxiê. — O inimigo está sempre à espreita. E a qualquer momento pode voltar.

A vontade é de ficar mais um pouco no calor da fogueira, mas todos entendem que é hora de se recolher, porque a lua também precisa dormir e dar lugar ao sol.

Kamuu olha o horizonte e agradece por mais aquele dia. Eles vão repousar. Sabem que, com os primeiros raios da manhã, precisarão atravessar o portal, como fazem a cada nascer do sol. Mas igualmente levam no peito a certeza de que, ao fim do dia, estarão todos reunidos em volta da fogueira.

* Este conto foi publicado na revista LiteraLivre (22ª ed.) e no livro “Vida sob as agruras da seca”.

** Clique aqui para ver o vídeo com a contação do conto “A luta do povo de Santxiê contra o exército de concreto armado”.


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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Profissional

Açougueiro, partia ossos como ninguém. Campeão de luta livre, sabia o lugar certo de golpear. Empregado doméstico, era hábil com martelos, furadeiras e alicates. Mas foi a experiência de costureiro que lhe garantiu o emprego de torturador: após a confissão, costurava, com destreza, a boca do delator. 

* Este microconto foi selecionado para publicação pelo Concurso Cultural "Covil da Discórdia" de Minicontos - 2ª edição.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Sem chão


Acordei sem ar. Tossi algumas vezes na tentativa de expelir toda aquela terra alojada nos meus pulmões. Saí dali sem olhar para trás. Andava nas ruas sem rumo, mas na esperança de me lembrar de meu endereço ou de que alguém me reconhecesse.

Eu não entendia por que todos me olhavam, mas, quando eu me aproximava, se afastavam, viravam a cara, faziam feição de nojo ou fingiam não me ver. Tudo aquilo era porque minhas vestes estavam sujas de terra?

Resolvi pedir informação a uma desconhecida na parada de ônibus. Distraída que estava, ao notar minha presença, ela gritou e correu. Novamente, eu estava só. E ainda sem lembrar onde morava.

Decidi voltar ao lugar onde acordara naquela manhã. Lá, passei pela entrada principal e pelos dormitórios enfileirados onde repousavam meus vizinhos temporários. Acima do lugar onde despertara naquele dia, vi uma cruz de madeira com o meu nome. Lembrei quem era e onde ficava minha casa.

Não demorei a chegar. Bati à porta e sorri, ao rever um rosto com feições que lembravam as minhas. Ela fechou a porta na minha cara, não sei se por não me reconhecer ou, exatamente porque, ao me reconhecer, sentiu vergonha de mim. E eu nem cogitara pedir a ela que me ajudasse a entender porque continuava atormentado por aquela sensação de que fora enterrado vivo.

Pela segunda vez no dia, voltei ao cemitério, mas não queria dormir de novo naquela mesma cova. Sentia a vida pulsar em mim como nunca. Do lado de fora, encontrei um homem deitado no chão. Sentei ali perto. Ele me ofereceu cachaça. Eu aceitei. Tinha frio.

— Sabia que aqui foi o único lugar de onde ninguém me expulsou? — confidenciou-me o meu mais novo melhor amigo.

Ali estava eu, acolhido por aquele desconhecido que pouco se importava com minhas roupas sujas e malcheirosas, ou mesmo com minha carne em estágio inicial de putrefação e larvas vivas a se alimentarem do meu rosto.

O amigo me ofereceu metade de seu cobertor imundo. Eu aceitei, agradeci e descansei em paz. Pelo menos, por aquela noite.

* Este conto foi selecionado para publicação pelo Concurso Cultural "Covil da Discórdia" de Minicontos - 2ª edição.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Memórias de natal


O ano é 3025 d.C. Não sei exatamente o que isso significa. Alguém, certa vez, me disse que somos a geração sem memória. Nem lembro mais por quê. Talvez seja o excesso de informação.

É véspera de natal. Não há enfeites nos prédios, na frente das casas, nem nas árvores. Aliás, árvores restam poucas pela cidade. As ruas estão desertas. Não é por menos. Ruas são lugares perigosos. Por isso, é proibido permanecer nelas. Por aqui, ficam somente aqueles de muita coragem ou que muito necessitam. Este é o meu caso. Meu nome é Nicolau. Uma homenagem ao meu avô, o último Papai Noel de shopping da família.

Com o avanço da tecnologia, as pessoas deixaram de ir aos lugares fazer compras. As compras passaram a ir até elas. Os shoppings ficaram obsoletos e vô Nicolau perdeu o emprego. Minha avó, com quem fui criado, dizia que as crianças já não acreditavam em Papai Noel, o que acabou com o espírito do natal. Até hoje, não entendo o que ela quis dizer com isso. Afinal, as pessoas continuam a gastar muito nas festas de fim de ano, como sempre foi.

Meu sonho era ser médico, mas não passo de um andarilho, a perambular pelas ruas, vestido com a antiga fantasia de Papai Noel do meu avô. Minha vida é pedir moedas dos poucos que encontro pelo caminho.

Algo me diz que hoje será um dia incomum. Talvez por causa da manifestação que, pelo que ouvi dizer, será aqui na Praça Central. Motivos para protestos sobram, mas há também muito medo do que possa acontecer a quem deles participe.

De repente, a praça fica lotada. A maioria parece ser de jovens, que cobrem o rosto com máscaras de LED. A tropa de choque chega logo em seguida. Cada soldado na sua nave. Há uma gritaria geral, seguida de tumulto, empurra-empurra e correria. A tropa joga água salinizada na multidão e aciona o dispositivo de choque. A maioria cai desmaiada. Alguns conseguem fugir. Terminado o trabalho, a tropa parte em revoada.

Aproximo-me dos feridos, para ver como posso ajudar. Meu Deus! Entre eles há uma grávida! A jovem de pele negra e olhar determinado reclama de fortes dores. Com a ajuda de um homem de barba e cabelos grisalhos, pego-a no colo e a levo a um lugar seguro perto dali. À sombra de uma árvore, forro o chão com a bandeira lilás que a jovem trazia na mão direita.

— O que você estava fazendo, grávida, naquela manifestação? — questiono-a.

— Era necessário — responde ela.

Penso em dizer que nunca vira em alguém tamanha loucura, mas digo ‘coragem’.

— Não há mais tempo para conversa. Ela está em trabalho de parto — interrompe-nos o ancião, pelas mãos de quem o bebê viria ao mundo, minutos depois.

O homem confidencia-nos que aprendera com a mãe, viúva, a fazer partos. Ela era uma mulher forte que, além de ajudar crianças a nascerem, dedicava a vida a tratar enfermidades dos desenganados que a procuravam.

— Qual o seu nome, menina? — pergunta o ancião.

— Maria — ela responde.

— Parabéns, Maria. Bendito é o teu filho! — diz o homem, ao envolver o menino na faixa em que se lia ‘Pelos direitos das mulheres’. Ao olhar Maria nos olhos, o ancião diz que ela lembra outra mulher de muita coragem, e nos conta uma história que me parece tão familiar, apesar de nunca tê-la ouvido.

Fala-nos de uma jovem também chamada Maria, que vivera há muito tempo bem longe dali. Ela estava noiva quando foi chamada para ser a mãe do filho de Deus, aquele que, ao ouvir o clamor do seu povo oprimido, desceria do céu para libertá-lo. Maria sabia que aquilo era arriscado. Temia chorar as dores de ver o filho morto por desafiar os interesses dos poderosos. Antes ainda, corria o risco de ser apontada nas ruas como mãe solteira e ser apedrejada até a morte, por trazer no ventre um filho fora do casamento. Mesmo assim, aceitou a missão.

O noivo de Maria era um homem bom e a amava muito. Não deixaria que o pior lha acontecesse. Aceitou a noiva e o filho que ela trazia no ventre.

Por conta de um governo tirano, mesmo com Maria grávida, foram obrigados a deixar a própria casa. Como retirantes, sem lugar para repousar a cabeça, Maria deu à luz. O menino foi visitado por humildes trabalhadores das redondezas e gente vinda de longe, que era acusada de feitiçaria por olhar as estrelas e prever o futuro.

Anos mais tarde, aquele menino mudaria para sempre os rumos da História. Daria a maior prova de amor à humanidade e uma grande lição a todos nós: amar uns aos outros como ele nos amou.

Ao ouvir aquelas palavras, a jovem Maria e eu, ali debaixo da sombra daquela árvore, sentimos arder nosso coração. Da minha parte, por achar que a história não poderia cair no esquecimento, resolvi levá-la, aonde quer que eu fosse, a quem precisasse dela.

Agradecida, a jovem Maria resolveu dar ao recém-nascido o nome daquele que salvara a vida de seu filho.

— Como se chama, bom homem? — perguntou ela ao ancião. Com um olhar que nos inspirava, ele respondeu com mansidão:

— Eu sou... Jesus.


* Este conto foi selecionado para publicação na antologia Mirage 2.


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Passado

Um homem de terno olha o relógio, no lado externo de uma sorveteria. Outro, de roupa de academia, passa ao lado. Para, franze a testa e se vira para o primeiro.

— Caralho, Marcão! Quanto tempo, bicho. Todo na beca! Nem parece aquele loucão que pegava as menininhas nas festas.

O homem de terno olha para trás e, depois, de volta para o interlocutor.

— Você está falando comigo?

— Porra, Marcão! Claro. Lembra não? A gente apostava quem se dava melhor, mas tu sempre se superava. Cara, tu pegou até a dona do puteiro. Tu é foda mermo!

— Eu?!

— É, Marcão. Agora vem dar uma de santinho? Pra cima de mim, pô?! Deixa disso.

— Tem certeza que não está me confundindo? — pergunta, enquanto o outro mexe no celular.

— Ei, vamo tirar uma selfie? Não posso perder essa oportunidade de impressionar a galera daquela época. Marcão, Marcão, o terror das xoxotas. Ê, bagaceira! — fala, dando um soco de leve no braço do outro. — A gente tem um grupo, sabia? Por que você não tá? Tá todo mundo lá, pô: o Pedrão, o Serjão, o Paulão — diz, contando nos dedos. Depois, fica ao lado do interlocutor e tira foto, mostrando os músculos para a câmera. — Mas o quê que aconteceu mermo, Marcão! Tu tá muito certinho, pô. Virou pastor, foi?

— De modo algum, meu caro — responde, enquanto um terceiro chega e lhe dá um selinho.

O outro se afasta do casal.

— Oi, amor. Desculpa o atraso — fala e olha para o homem de regata. — Quem é? De longe, pareceu ser um amigo de longa data.

O homem de terno faz menção de responder, mas é interrompido pelo outro.

— Não, não. Eu só ia pedir uma informação: se eu pegar essa rua e ir direto, eu vou dar onde mermo?

* Este conto foi selecionado para publicação na antologia Mnemephile.

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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Piano fim

Dó. Foi a nota inaugural a soar assim que caiu a primeira lágrima do seu rosto sobre a tecla do piano. E as notas se sucediam. E as lágrimas também. Ela sabia que seu suspiro derradeiro estava próximo, e que seria logo após o cessar da melodia que se iniciara. Afinal, foi com as próprias mãos que ela ligou o dispositivo da bomba às cordas do instrumento.

E foi se lembrando de que, quando ainda nem sabia que era gente, ouvia, do ventre da mãe, aquela delicada voz a cantarolar um sem fim de melodias, que, de tão singelas, lhe tocavam o prematuro coração, fazendo-o bater ainda mais rápido. Lembrou também que, ao vir à luz, seu choro soou como música para os ouvidos maternais. E que, a cada noite, adormecia nos braços daquela que lhe murmurava um infinito repertório de canções de ninar.

O tempo foi passando, quase que no mesmo compasso das cantigas de roda e das cirandas que as crianças, no meio da rua, repetiam em uníssono crescente. Ela até se esforçava para prender o tempo com as próprias mãos, mas ele fugia. Em suas pequeninas e frágeis mãos só conseguia segurar mesmo a escova de cabelo da mãe, enquanto, diante do espelho e a todo volume, fingia ser uma daquelas famosas cantoras da TV.

A menina que aparecia no espelho também se foi. No seu lugar, via-se uma mulher que era toda harmonia. Cansada daquelas adocicadas músicas de adolescente, decidiu dar um passo a frente e formar um dueto. Finalmente, encontrou sua segunda voz. E como eles se afinavam... e como era mágica a sintonia entre os dois...

Mas um dia o ritmo desanda... ou porque, mesmo estando juntos, já não queriam tocar as mesmas músicas ou porque outro instrumento teimava em entrar no meio canção. Era como se a voz de cada um deles, que até então casava perfeitamente, agora fosse dissonante. E assim, o melhor arranjo foi cada um seguir carreira solo. Para ela não foi fácil. Depois de tantos e tantos ensaios em conjunto, quem é feliz sendo uma nota só?

Soluçava em staccato, suspirava em bemol, murmurava em sustenido. Logo depois de uma pausa breve, sua voz aguda, de timbre inconfundível, voltava a romper o silêncio. E a sinfonia era só lamento. Seu pranto percorria todas as notas, de todas as escalas, passando por todas as oitavas. Parecia até que era da garganta que saía aquele som que se fazia ouvir por quem quer que fosse, atravessando paredes e portas que tentavam, sem sucesso, trancar seu segredo a sete claves.

Do seu canto, percebeu que o cansaço lhe forçava a pôr fim à canção. E tocou as últimas notas que lhe restavam para compor a música de sua vida. Compassadamente. Sem pensar em si. Era toda e somente: dó.

[…]

Bum.


* Este conto foi selecionado para publicação pelo Motus - Movimento Literário Digital #3.

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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Dr. Google

Sabe aqueles dias em que acordamos com uma incômoda dor de cabeça, sem ter a mínima ideia de onde ela veio nem quando vai embora? Pois é. Foi assim comigo. O nosso primeiro pensamento é tomar um analgésico, mas fui prudente e resolvi consultar o Dr. Google. Sim, liguei o computador, abri o site de buscas e digitei meus sintomas. 




Apareceram tantas milhões de páginas que se eu fosse ler uma por uma morreria de velhice antes de encontrar cura. Fui o mais específico possível na nova pesquisa. Com menos resultados, resolvi consultar os do topo da lista. 

Na primeira página, eu me apavorei ao descobrir que estava com um câncer no cérebro e os dias contados. Fechei a página antes de chegar ao fim do primeiro parágrafo. Na segunda, fui informado que não era tão grave, mas que eu precisava fazer um tratamento com remédios controlados, prescritos por um neurologista. Resolvi buscar uma terceira opinião: a página orientava-me a fazer tratamento ortodôntico. Afinal, tratava-se de uma disfunção provocada pelo mau posicionamento da minha arcada dentária. 

Com três diagnósticos diferentes, decidi procurar um médico de carne e osso. Quem sabe ele desempataria o pleito, com seu voto de minerva? Ele perguntou como eu me sentia. Eu pensei em dizer "confuso", mas achei mais sensato relatar os sintomas que me afligiam a saúde e me levavam a estar ali. 

Ele me examinou: pareceu olhar meus olhos, meus ouvidos, minha garganta, meus batimentos e mais um monte de coisas que eu nem faço ideia. Perguntou também sobre meus hábitos, histórico de doenças na família e tantas outras coisas que até parecia se tratar de uma investigação criminal em que eu era o principal suspeito. 

No fim, ele disse que estava tudo bem comigo e que a causa provável da minha dor de cabeça era o excesso de horas que eu passava diante do computador. Era vista cansada. Eu deveria repousar, evitar preocupações e fazer atividades prazerosas. Aliviado, mostrei-me agradecido ao médico. Antes de sair, ele me perguntou quem o havia indicado para mim. Eu disse que ninguém específico. 

— Como você me encontrou, então? 

— No Google, doutor! 

* Este e outros contos estão na obra Livrinho da Silva. Para aquirir o livro, clique aqui.

** Este conto foi selecionado para publicação pelo Concurso Literário Internacional da Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande 2015.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Sorte Grande

Nunca fui homem de sorte, ainda que tentasse. Toda semana era sagrado: eu tava lá, fazendo minha fezinha. Comecei com jogo do bicho: tentava o leão e era vaca na cabeça; ia pro pavão e dava zebra. 

Larguei os bichos, mas fiquei com os cavalos de corrida: arriscava no azarão, ganhava o favorito; apostava no invicto, vencia o estreante. 

Abandonei os cavalos e procurei os cassinos: no caça-níquel, achei que encontraria maré de sorte, e nada. Apostei minhas fichas na roleta e fiquei rodado. Tentei minha última cartada e saí de mãos abanando. 

Desesperado, parti pro tudo ou nada: joguei na sena, megasena, telesena; apostei no Ayrton Senna e perdi. 

Uma hora, eu já frequentava até bingo de igreja, não fugia nem de par ou ímpar e se, alguém me punha à prova, eu peitava: “Quer apostar?” 

Só sei que, nessa aí, tudo o que eu ganhei foi prejuízo. Percebi que precisava virar o jogo. E desse dia em diante, minha sorte mudou. Parei de fazer apostas. E agora toda vez que não jogo, ganho: o dinheiro que deixo de gastar. Com isso, já fiz uma bela grana. Fala a verdade: isso é ou não é tirar a sorte grande? 

terça-feira, 10 de abril de 2018

Em Construção

Tijolo por tijolo, as paredes eram levantadas. Ninguém sabia ao certo que construção era aquela, nem pra que servia. A cada dia, mais seixo, areia e cimento. Em algumas semanas, esboçava-se alguma coisa. Aos poucos, a obra saía do papel e as pessoas se aglomeravam para dar espaço ao empreendimento que por ali se delineava. Alguns diziam que, pela espessura da parede, o novo prédio só poderia ser para abrigar feras selvagens e evitar que elas ameaçassem a segurança do povoado.

Ao passo que a construção parecia chegar perto do fim, as pessoas se sentiam mais seguras. Contudo, havia algo estranho ali. Ao menos, foi o que passou a desconfiar um pequeno grupo entre eles. A obra, que se acreditava ser construída para longe, agora avançava na direção do povoado. Quando percebeu isso, a multidão apavorada começou a correr no sentido contrário, mas as paredes, de repente, passaram a ser levantadas em ritmo acelerado. Não havia como fugir. Estavam encurralados.

O espaço não era tão amplo como se pensava no começo e, cada vez mais, as pessoas se espremiam umas às outras. O que antes aparentava ser erguido para a segurança de todos, agora lhes restringia a liberdade.

O vão entre as duas pontas da muralha de concreto, construída em formato circular, foi fechado por uma porta fabricada com uma única peça de ferro. Depois de trancar a porta da fortaleza pelo lado de dentro, o pedreiro engoliu a chave e teve prisão de ventre perpétua.

* Este conto foi finalista do Prêmio Literacidade 2016 e selecionado para publicação no blog Enchendo Estantes.

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domingo, 4 de fevereiro de 2018

Para descarte

Não. Diferente do que muitos pensavam e alguns diziam, ele não vivia do lixo. Neto era catador de material reciclável. Lixo era o que sobrava daquilo que ficava de fora de sua criteriosa seleção. Cobre, zinco e alumínio, papel, papelão, plástico e pneus. Nada passava despercebido aos seus olhos. Com pedaços de madeira que encontrava pelo caminho, já havia até mobiliado boa parte de seu casebre.

Um objeto chamou sua atenção, certa vez. Era um material escuro e resistente, em meio a jornais e revistas. Pegou-o com cuidado e percebeu que se tratava de um livro capa dura sem ilustrações. As letras eram minúsculas e exigiam esforço de quem tentasse decifrá-las. Apesar de uma mancha de café em todas as páginas, o papel apresentava bom estado de conservação. Neto levou o livro para casa.

Antes de se deitar, à luz de lamparina, folheou algumas páginas, enquanto jantava uma sopa requentada, como de costume. Sua intenção era saber se o livro tinha potencial para ser vendido a um sebo ou tão somente iria para a reciclagem. A leitura o fisgou de tal forma que ele não conseguia parar de folhear a obra. Foram pelo menos três capítulos em questão de minutos, até que, vencido pelo cansaço de um dia inteiro de trabalho, adormeceu com o livro nos braços.

No dia seguinte, saiu cedo com sua carroça coletora, mas não esqueceu o livro. Levou-o a tiracolo e, nos intervalos para descanso, avançava na leitura. Nunca ouvira falar daquela obra. Não havia como saber se era um título raro, um fracasso de vendas ou uma publicação marginal. Página a página, Neto se perguntava por que aquilo demorara tanto para encontrar seus olhos. Não sabia a resposta. Por sinal, nem o livro lhe trazia resposta alguma; somente questões. Ele não entendia o que tanto o prendia naquela obra. Talvez o fato de, ao ler, não se sentir preso, mas inexplicavelmente livre.

Muitas palavras fugiam de seu vocabulário. Ainda assim, apreendia, pelo conjunto, o que dizia o autor. A linguagem era direta e dialógica. O escritor parecia falar diretamente a Neto. A cada capítulo, fazia-lhe perguntas, às quais Neto se esforçava para responder, ainda que isso o levasse a novas questões, cada vez mais complexas, agora feitas pelo próprio leitor. Por vezes, o autor fazia gracejos e ambos, autor e leitor, juntos, caíam na gargalhada.

O livro falava de um lugar deserto, onde outrora era intenso o tráfego de seres humanos. Agora só restavam ali animais de carga abandonados pelos antigos donos. O incrível é que continuavam a ir e vir como se ainda estivessem a transportar pessoas e mantimentos em troca de capim. Muitos morriam de fome e estafa nessa infindável viagem. Alguns se davam conta de que não havia mais um dono a chicoteá-los e que só a eles próprios cabia perseguir alimento e o seu destino. Raros grupos debandavam-se e descobriam terras férteis nas redondezas.

Finda a leitura, Neto começou a se perguntar se não somos todos animais de carga a perambular de um lado para o outro sem saber sob as ordens de quem. Pensou ele que deixar de enxergar que não temos dono e que podemos seguir novos rumos significa estar fadado a morrer uma indigna morte, antecedida de uma vida não menos indigna.

Neto olhou para si e para os lados. Não suportava mais ser visto como lixo, descartado como os animais de carga da história abandonados pelo dono. Estava disposto a fazer algo; só não sabia o quê. Partilhava suas angústias com os colegas de ofício. No princípio, ridicularizavam-no: diziam que enlouquecera, que não havia nada a fazer e que, desde que o mundo é mundo, tudo sempre foi assim.

Mas, aos poucos, o que Neto dizia tocava as pessoas e passava a fazer sentido. Ele já não estava só. Agora eram várias vozes numa só voz. Passaram a se reunir com frequência para conversar. Cada vez mais, o grupo crescia. Falavam sobre o que viviam e queriam. Decidiram tomar as próprias rédeas e traçar novos caminhos. Começaram a exigir tratamento digno. Afinal, eram trabalhadores cujo labor impedia que a cidade se tornasse o lixo que seres de passagem produziam sem se preocuparem onde isso ia parar.

No começo, Neto e seus parceiros apanhavam da polícia. Nas ruas, eram xingados e acusados de serem os responsáveis pela imundície em que se encontrava a cidade. Resistiram e, aos poucos, percebiam que algo diferente acontecia: já não eram invisíveis. A muitos convenceram de que pôr as mãos em detritos não os contaminava, nem os tornava lixo. Impuseram-se, reinventaram-se e fizeram a cidade reciclar seu olhar sobre eles.

Tempos depois, uma das estantes de uma biblioteca comunitária do bairro guardava um livro que falava de animais de carga abandonados pelos donos em um lugar deserto. Bem ao lado, ficava outro: a autobiografia de um homem que, depois de encontrar no lixo um livro, reescreveu a história da cidade.

* Este e outros contos estão na obra Livrinho da Silva. Para aquirir o livro, clique aqui

** Para Descarte foi também selecionado para publicação na Revista Benfazeja.

Leia gratuitamente outros contos do mesmo autor
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Tráfico
O dia em que meus escritos já não eram meus

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Antologia do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros

Para acessar o livro com poemas e contos premiados no II Concurso Literário Internacional Palavradeiros, além de textos literários de convidados, clique na foto abaixo.


Para mais informações, clique no regulamento do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Enfadado de lugares-comuns, o poeta refugiou-se nas montanhas. Do topo, mergulhou no mar de palavras já ditas. Encharcado delas, caminhou até a praia e as deixou cair na areia. Com a ponta dos dedos, enterrou-as no chão e viu brotarem neologismos. Para ele, reinventar o antigo não era novidade.
Fonte: blog A Procura da Felicidade
* Este conto foi o 16º colocado da segunda semana do V Prêmio Escambau de Microcontos, realizado pelo Coletivo Escambau de Arte e Cultura, e pode ser encontrado no site do coletivo.

** Para ler microcontos do mesmo autor selecionados em edições anteriores do Prêmio Escambau de Microcontos, acesse:

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

II Concurso Literário Internacional Palavradeiros - apoiadores

Relação (preliminar) de patrocinadores e apoiadores do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros (via financiamento coletivo)

Patrocinador
José Vilela

Apoiadores

  • Cristina Camargo
  • Edgar Borges
  • Gabriel Alencar
  • João Peçanha
  • Marcelo Perez
  • Marco Antônio Tessarotto
  • Ricardo Dantas
  • Roberto Mibielli
  • Rodrigo Leonardo Costa de Oliveira


E a lista só aumenta! Faça parte você também.

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As doações podem ser feitas a partir de R$ 10,00.
Os doares recebem recompensas e a nossa eterna gratidão

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terça-feira, 17 de outubro de 2017

II Concurso Literário Internacional Palavradeiros: Comissão Julgadora


Lívia Milanez é escritora, resenhista, revisora e tradutora. Publica alguns de seus textos no canal “A Grande Desova”, resenhou romances do Prêmio Sesc de Literatura e foi homenageada como leitora especial pela comissão organizadora do concurso em 2015. Em 2017, participou da coletânea Novena para pecar em paz (editora Penalux) com o conto “Um caule de mogno”.




Mestra Lainha é multi-artista. Atriz, escritora, compositora, cordelista, performer, faz poesias, contos e crônicas. Premiada em todas essas áreas, tem em sua extensa carreira solos criativos premiados de poesia e Literatura de Cordel. Além de compositora, é Cordelista, Artista, Psicopedagoga, Atriz, Diretora e Produtora. Presidente do Ponto de Cultura Literatura de Cordel para todos em Ilhéus-Bahia.





Zanny Adairalba – Poeta e compositora desde a infância, Zanny acumula em seu currículo diversos prêmios por suas criações poéticas e musicais. Em 1992 deixou Pernambuco para residir em Roraima, onde desenvolve trabalhos voluntários de incentivo à leitura junto ao Coletivo Caimbé. É autora das obras poéticas Micropoemas, Palavras em preto e branco, Repoetizando, Carrossel Agalopado, PoesiaZinha, Pétala de despedidas e Movimentos Inexatos, além de cordéis que abordam temas variados.



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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

II Concurso Literário Internacional Palavradeiros: resultado

Com vocês, o resultado do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros

Poesia
1º lugar: Bailarino (Duda Azevedo)
Escola: Ayrton Senna da Silva
Orientadora: Darlete Souza Nascimento

2º lugar: Despedida ao inominável (Fernanda Fonteles Albuquerque)
Escola: Colégio de Aplicação
Orientadora: Maria Adrenalina do Nascimento Oliveira

3º lugar: Liberdade (Kemilly Duarte Mota)
Escola: Colégio de Aplicação
Orientadora: Maria Adrenalina do Nascimento Oliveira

Conto
1º lugar: Dançarina (Don)
2º lugar: Corrida noturna (Gabriel Alencar)
3º lugar: E o fim dos dias findos (Tata)

Ao todo, foram 8 inscritos, entre estudantes e escritores iniciantes e experientes.

Não houve inscrições na categoria Videopoesia.

A data e o local da premiação serão divulgados posteriormente.

Conforme regulamento, será concedida premiação em dinheiro aos três primeiros colocados de cada categoria, conforme abaixo:

Categoria Poesia
1º lugar: R$ 100,00 para o(a) aluno(a) e R$ 25,00 para o(a) professor(a)/orientador(a);
2º lugar: R$ 50,00 para o(a) aluno(a) e R$ 25,00 para o(a) professor(a)/orientador(a);
3º lugar: R$ 25,00 para o(a) aluno(a) e R$ 25,00 para o(a) professor(a)/orientador(a).

Categoria Conto
1º lugar: R$ 100,00;
2º lugar: R$ 50,00;
3º lugar: R$ 25,00.

Todos os finalistas receberão ainda certificado. Os finalistas que estiverem presentes na solenidade de entrega dos prêmios receberão também premiação complementar, a ser definida pela Comissão Organizadora.

Agradecemos a todos os participantes.

Comissão Organizadora

quarta-feira, 13 de setembro de 2017