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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Quem Ganha com as Eleições?

Você já reparou como nos referimos às eleições? Tem sempre alguém que ganha e outro que perde a disputa eleitoral. Ganha? Perde? Disputa? Então se trata de uma competição? E pelo quê? Pela defesa do País?

Os atletas quando competem estão à procura de fama e dinheiro. E os nossos candidatos políticos buscam o quê? Se o objetivo é o mesmo (defender a população), por que há disputa? Quem tem os mesmos objetivos não precisa brigar entre si. Afinal, não existem adversários. Estão todos do mesmo lado. Já numa batalha pela conquista de um território vale tudo. Principalmente, golpe baixo.

Mas eleição é isso mesmo? Não seria esse o momento em que escolhemos as pessoas mais preparadas para decidir os rumos do País? A melhor metáfora seria uma competição esportiva, uma guerra ou um processo de seleção, em que, de acordo com os critérios previstos no regulamento, escolhemos os melhores candidatos? Fico com esta última opção. A melhor pergunta não seria, então, quem ganhou ou vai ganhar as eleições, mas quem ganha com as eleições. E a resposta para essa pergunta deveria ser: o povo.

* A crônica ‘Quem ganha com as eleições?’ ficou em 3º lugar no IV Concurso Literário da Academia Leopoldinense de Letras e Artes (ALLA).


Leia também a crônica: Jornalista vale alguma coisa?

Leia ainda:
Poema de sacanagem
A multiplicação dos pães partidos
Deus para presidência (trecho do livro)
Kitiama para sempre

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A multiplicação dos pães partidos

Depois de um dia intenso de trabalho, Emanuel e seus amigos atravessaram a ponte de bicicleta, distanciando-se da cidade, em busca de um lugar deserto para descansar. Chegando lá, no ponto mais alto, de onde era possível ver todo o povoado, perceberam que não estavam sós. Emanuel viu nos olhos da multidão o cansaço por levar a vida que levavam e teve compaixão daquele povo.
Alguns amigos de Emanuel lhe disseram que deveriam rezar para que aquelas pessoas mudassem de vida. Elas, que trabalhavam duro, de sol a sol, para receber um dinheiro pingado, que mal dava para sustentar tantas bocas em casa, que, de segunda a segunda, andavam de lá para cá, pela cidade, dentro de ônibus lotados, e que, depois disso tudo, só queriam saber de assistir à novela e dormir, para, como sempre, acordar bem cedo no outro dia.
Um amigo sugeriu que arrecadassem comida para doar àquela gente faminta, mas Emanuel fez diferente, porque sabia que isso não mataria a fome do povo. Emanuel perguntou a eles o que tinham e recebeu como resposta: “muita fome, pouco pão e muitos braços.” Sem contar inutilidades como promessas não cumpridas, um lado de uma sandália, chaveiros, camisas de candidatos e botons.
Emanuel, então, orientou o povo a se reunir em grupos, alguns menores, outros maiores, e que, nesses grupos, tudo fosse partilhado. E assim fizeram. Eles tinham tudo em comum: comida, bebida, suas dores e angústias, e sonhos, muitos sonhos de uma vida melhor.
Foi então que perceberam que juntos poderiam acabar com aquilo que lhes causava fome. Decidiram não confiar em quem só lhes dava cesta básica a cada quatro anos. O tempo passou e a vida deles mudou da água para o vinho. Milagre? Não, não foi milagre. Eles apenas resolveram colocar a mão na massa, em vez de esperar que o pão nosso de cada dia caísse do céu. Não só fizeram questão de decidir os nomes de quem estaria à frente do lugar, como passaram a participar ativa e cotidianamente das decisões sobre o que era melhor para o pedaço de chão em que pisavam.
No lugar de expressões de cansaço, apareceram sorrisos e esperança. E no lugar da fome, trabalho digno, crianças na escola, filhos na universidade. Mas nada aconteceu de um dia para o outro. E é por isso que até hoje eles seguem as palavras de Emanuel.

* O conto ‘A multiplicação dos pães partidos’ foi publicado na revista Pacheco.