sábado, 1 de novembro de 2014

Palavras da patroa

Ao ver o mínimo no meu contracheque, ela berrou: — Eu acho é pouco! — E com razão.

*O  microconto ‘Palavras da patroa’ foi selecionado para publicação pelo 4º Concurso de Microcontos de Humor de Piracicaba, promovido pela Secretaria Municipal de Ação Cultural de Piracicaba. Dos 294 inscritos de 22 estados brasileiros e de Portugal, França, Japão e Alemanha, 100 textos de 140 caracteres foram escolhidos para a coletânea. Pode ser acessado no site da Biblioteca de Piracicaba.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O abajur de Luzia

Luzia mora com os avós. A menina tem um quarto só para ela, mas não gostava de dormir sozinha, porque sentia medo e ficava a noite toda chamando por eles. Seu avô e sua avó até lhe diziam que não havia motivo para ter medo, mas não adiantava muito. Luzia continuava inquieta e acabava não dormindo direito.
Na manhã seguinte a uma dessas vezes, o avô de Luzia acordou bem cedo e foi até o porão. Lá, levantou a tampa do baú de madeira antigo, revirou as tralhas que guardava ali dentro e de lá tirou um abajur empoeirado. Passou um pano úmido no abajur, que agora já nem parecia tão velho. Depois, ficou horas trabalhando no conserto do objeto, que há tempos estava sem funcionar. Por fim, ele enfeitou o abajur com adesivos coloridos, que combinaram perfeitamente com a decoração do quarto da menina.
Na hora de dormir, Luzia e os avós foram até o quarto dela. Seu avô disse “faça-se a luz!” e ligou o abajur na tomada. Funcionou! Feito mágica, o abajur iluminou todo o quarto. Os olhos da menina brilhavam fascinados com a luz que irradiava da pequena lâmpada colorida. Com o abajur ligado, ela viu espalhadas pelo teto pequenas estrelas feitas de papel recortado. Era mais um agrado de sua avó. Naquela noite, Luzia dormiu com um largo sorriso nos lábios.
Quando acordou, a primeira coisa que fez foi correr na direção dos avós para abraçá-los. – Vó, eu nem senti medo! – disse a menina. A avó fez um cafuné em Luzia e respondeu: – Eu vi, minha filha. Parabéns! Estou muito orgulhosa de você.

O conto ‘O abajur de Luzia’, 6º colocado no 3º Desafio Literário Farol Fantástico, foi selecionado para publicação na revista Farol Fantástico - revista eletrônica de publicação trimestral voltada exclusivamente para a literatura infanto-juvenil.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A multiplicação dos pães partidos

Depois de um dia intenso de trabalho, Emanuel e seus amigos atravessaram a ponte de bicicleta, distanciando-se da cidade, em busca de um lugar deserto para descansar. Chegando lá, no ponto mais alto, de onde era possível ver todo o povoado, perceberam que não estavam sós. Emanuel viu nos olhos da multidão o cansaço por levar a vida que levavam e teve compaixão daquele povo.
Alguns amigos de Emanuel lhe disseram que deveriam rezar para que aquelas pessoas mudassem de vida. Elas, que trabalhavam duro, de sol a sol, para receber um dinheiro pingado, que mal dava para sustentar tantas bocas em casa, que, de segunda a segunda, andavam de lá para cá, pela cidade, dentro de ônibus lotados, e que, depois disso tudo, só queriam saber de assistir à novela e dormir, para, como sempre, acordar bem cedo no outro dia.
Um amigo sugeriu que arrecadassem comida para doar àquela gente faminta, mas Emanuel fez diferente, porque sabia que isso não mataria a fome do povo. Emanuel perguntou a eles o que tinham e recebeu como resposta: “muita fome, pouco pão e muitos braços.” Sem contar inutilidades como promessas não cumpridas, um lado de uma sandália, chaveiros, camisas de candidatos e botons.
Emanuel, então, orientou o povo a se reunir em grupos, alguns menores, outros maiores, e que, nesses grupos, tudo fosse partilhado. E assim fizeram. Eles tinham tudo em comum: comida, bebida, suas dores e angústias, e sonhos, muitos sonhos de uma vida melhor.
Foi então que perceberam que juntos poderiam acabar com aquilo que lhes causava fome. Decidiram não confiar em quem só lhes dava cesta básica a cada quatro anos. O tempo passou e a vida deles mudou da água para o vinho. Milagre? Não, não foi milagre. Eles apenas resolveram colocar a mão na massa, em vez de esperar que o pão nosso de cada dia caísse do céu. Não só fizeram questão de decidir os nomes de quem estaria à frente do lugar, como passaram a participar ativa e cotidianamente das decisões sobre o que era melhor para o pedaço de chão em que pisavam.

No lugar de expressões de cansaço, apareceram sorrisos e esperança. E no lugar da fome, trabalho digno, crianças na escola, filhos na universidade. Mas nada aconteceu de um dia para o outro. E é por isso que até hoje eles seguem as palavras de Emanuel.

O conto ‘A multiplicação dos pães partidos’ foi publicado na revista Pacheco.

domingo, 7 de setembro de 2014

Êxodo


O poema ‘Êxodo’ foi selecionado para publicação no Livro da Tribo, da Editora da Tribo e na edição trimestre I – 2017 da Revista Semeadura, e pelo projeto Folhinha Poética 2015Foi ainda selecionado em 2016 pelo projeto Declame para Drummond.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Obra-prima

Os dois tiveram o mesmíssimo sonho. Artistas plásticos em começo de carreira, sonharam que chegara o dia que tanto esperavam: seu talento seria finalmente reconhecido. Antes do pôr-do-sol, eles pintariam o mais belo quadro que o mundo já vira, a obra-prima das obras-primas, a obra de arte para a qual Da Vinci sequer teve a ousadia de se inspirar. Mas uma era a condição: eles teriam de pintá-la a quatro mãos. Nada demais, não fosse um detalhe: mesmo morando na mesma cidade, ainda não se conheciam.
Levantaram-se da cama bruscamente, ainda sonolentos. A janela anunciava o nascer do sol. O sonho não lhes saía da cabeça. Deveriam levá-lo a sério? Que loucura! Pintar um quadro com um desconhecido e em poucas horas? E ainda mais aquela que seria a maior obra de arte de todos os tempos? Ainda que confusos, do sonho lembravam que o encontro entre os dois seria no centro da cidade. Assim que se encontrassem, reconhecer-se-iam mutuamente, mas não sabiam exatamente como.
Tomaram um banho rápido. Vestiram uma calça qualquer e a primeira camisa que encontraram, exatamente aquela jogada sobre um dos cavaletes. Tomaram café às pressas. Aliás, nem o tomaram todo. Um pouco do café caiu acidentalmente na camisa que vestiam. Saíram correndo de casa assim mesmo, em direção ao centro da cidade. Realmente precisam apressar-se. Eles tinham somente até o sol se pôr para trazer ao mundo a arte suprema.
Algo lhes dizia que deveriam ir até o marco zero da cidade. E foram. Chegaram quase no mesmo instante e se reconheceram na mesma hora. Correram um em direção ao outro, como se fossem velhos amigos que não se viam de longa data. Abraçavam-se e gargalhavam extasiados de felicidade. Vestiam a mesma calça jeans e a mesma camisa manga curta de meia branca, manchada de tinta e com respingos de café. Era o sinal. Eram eles mesmo.
Não falavam nada. Não havia o que dizer. Nos olhos um do outro viam o quanto tinham em comum, além da profissão e da cidade natal. A vontade de viver da arte. O mesmo estilo. As mesmas influências. Os mesmos gostos. O sonho de seus traços mudarem a forma de a humanidade ver o mundo. O sonho que tiveram na noite passada... e a certeza de que aquele era mais que um sonho... Céus! O sonho! - pensaram eles. Não poderiam mais perder tempo. O sol marcava meio-dia.
Em poucos minutos decidiram questões práticas como a composição do quadro, a técnica, o estilo, o tamanho da tela, a profundidade, a luz, as cores. Aparentemente, tudo resolvido, um deles puxou o outro pelo braço:
- Vamos! Meu ateliê fica pra lá.
O outro não arredou o pé:
- Achei que fôssemos pintar no meu ateliê!
E começaram a discussão. Cada um apresentando mais e melhores argumentos que o outro de que o seu ateliê era o local mais adequado para nascer a obra de arte. Porque era mais amplo. Mais confortável. Mais inspirador. Por que lá havia acervo de material suficiente para finalizar o quadro e, ainda que viesse a faltar algo, perto havia onde comprar os suprimentos necessários.
Os argumentos e contra-argumentos não tinham fim. E as horas se passavam. E ali eles permaneciam, sem chegar a uma decisão. Até que o sol se pôs. Enfim, escureceu. Não havia mais nada a fazer. Com a luz do sol, foi também a chance de a humanidade ver a obra-prima das obras-primas.
Parece que tudo não passara de um sonho. Ao menos, foi o que pensaram ao levantar da cama bruscamente, ainda sonolentos. A janela anunciava o nascer do sol. O sonho não lhes saía da cabeça. Deveriam levá-lo a sério? Que loucura! Deixar de produzir a maior obra de arte de todos os tempos por não conseguir chegar a um consenso sobre onde pintá-la? Eles não tinham tempo a perder. Tomaram um banho rápido, vestiram uma calça e uma camisa qualquer, tomaram café às pressas e saíram correndo em direção ao centro da cidade.

O conto 'Obra-prima' foi selecionado para publicação, pelo II Concurso Literário “O Velho Matemático”, no livro 'As Aventuras do Velho Matemático', ficando em 4º lugar no concurso, que contou com a participação de 113 escritores na modalidade conto. O livro pode ser adquirido com este contista ou com o organizador da coletânea, escritor Paulo Henrique Gonçalves. O conto também foi publicado na Revista Pacheco, na revista Desenredos e na revista Benfazeja.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Poema de sacanagem

Clinton fumou, mas não tragou
Lula bebeu, mas não caiu
Fidel pitou e tropeçou
Maluf diz: Pitta que partiu

Clinton gozou, mas assumiu
Hillary engoliu, mas se elegeu
Bush invadiu, pintou e bordou
Al Gore nem ganhou e nem perdeu

Lula foi traído, mas não viu
Collor confiscou, caiu, voltou
Tancredo venceu, mas não assumiu
Sarney até hoje é senador

Jefferson dedurou Ali Babá
Dirceu foi o Congresso que cassou
ACM teve que renunciar
FHC quase a mãe privatizou

Quem mesmo que comprou, mas não pagou?
Rouba, mas faz. Ninguém sabe, ninguém viu
O povo reclamou, mas reelegeu
Quem muito prometeu, mas não cumpriu

* 'Poema de sacanagem' foi selecionado para publicação, pelo X Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus, no livro 'Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus – 2013'. O livro foi lançado em 2014 no 28º Salão do Livro e da Imprensa de Genebra (Suíça) e na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo e pode ser comprado no site da PerSe Editora, na versão impressa e digital. O poema também foi publicado na Revista Pacheco.
** Uma versão ampliada do poema foi publicada ainda no livro Retalhos II, organizado por Aroldo Pinheiro.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Mídias e grades

Este é o trailer do documentário 'Mídias e Grades', realizado em 2008, em que atuei como diretor e roteirista. O documentário fala sobre a influência de programas televisivos sensacionalistas na prática de violência entre presidiários. Em ‘Mídias e grades’, homens privados de liberdade contam como foram agredidos na cadeia, depois da superexposição a que foram submetidos nos meios de comunicação, por causa do crime pelos quais eram acusados. Há também depoimentos de jornalistas, defensores públicos e gestores do sistema prisional.
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‘Mídias e grades’ venceu a etapa regional Norte e foi finalista da etapa nacional do XVI Prêmio Expocom 2009 (Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação), na modalidade ‘Documentário em vídeo’, categoria ‘Jornalismo’. O prêmio foi realizado dentro do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom).
O documentário foi ainda selecionado para a I Mostra de Cinema Universitário, realizada em 2008 pela Universidade Federal de Roraima.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Herança negra

Eles chegaram aqui escravos e transformaram o País
E agora a negritude está em todo e qualquer canto
Música, literatura, culinária, religião
Difícil é dizer onde seus traços não estão

Até a Língua Portuguesa não é mais a mesma
Filho mais novo agora é caçula
Comida gostosa é quitute
Música animada é batuque
Quem quer carinho faz dengo

E quem imaginou que, um dia, a senzala faria do Brasil a sua grande casa?

O poema 'Herança Negra' foi selecionado para publicação em 2013, pelo concurso cultural Poesia Todo Dia, realizado pela editora AlphaGraphics. Foram inscritas mais de 1.100 poesias, das quais 365 foram publicadas no livro Poesia Todo Dia. O livro pode ser adquirido nas versões impressa e digital. Recebeu menção honrosa do XI Prêmio Literário Galinha Pulando (2014), realizado pelo escritor Valdeck Almeida de Jesus, sendo selecionado para publicação no livro PRÊMIO LITERÁRIO GALINHA PULANDO 2014, que pode ser comprado nos formatos e-book e impresso no site da editora PerSe. Foi ainda selecionado em 2014 pelo projeto Declame para Drummond, que, em homenagem a Carlos Drummond de Andrade, promove a circulação de poesia autoral e a formação de público nas cidades e nas redes sociais. Além disso, foi selecionado pelo projeto Folhinha Poética 2017, e publicado na revista Gente de Palavra.


terça-feira, 27 de maio de 2014

As moedas encontradas e o homem perdido

Um homem saiu com a mulher e os filhos para um piquenique. Era domingo. Fazia tempo que não tinham um programa em família. O pai trabalhava de segunda a sábado.
No caminho, ele avistou uma moeda que reluzia na calçada. Abaixou-se para pegá-la. Nem se levantou e encontrou outra moeda. E outra. E outra. E mais outra. E as moedas se multiplicavam em um número incontável. De certo, pensou que se tivesse mais moedas, melhor seria o piquenique. E quanto mais moedas encontrava, mais planos fazia: comprar um carro, mudar de casa, deixar o trabalho para dedicar mais tempo à família.
O piquenique não aconteceu. A mulher e os filhos desistiram de esperar e voltaram para casa. Dizem que até hoje o homem está lá, jogado na calçada, na beira da sarjeta, a catar moedas que nunca o saciarão.

* O conto 'As moedas encontradas e o homem perdido' foi selecionado para publicação pelo projeto Folhinha Poética 2015 e pelo II Concurso Literário “O Velho Matemático”, para o livro 'As Aventuras do Velho Matemático'. O concurso “O Velho Matemático” foi realizado em 2013 e contou com a participação de 113 escritores na modalidade conto. O conto foi ainda publicado na coluna 'Rede Literária' do blog 'Cultura de Roraima & afins', do escritor Edgar Borges, na versão "revista" da coluna Rede Literária, publicada na Revista Somos Amazônia, da Fecomércio Roraima, edição abril/maio de 2014, e no blog 'O Velho Matemático', do escritor Paulo Henrique Gonçalves. O livro pode ser adquirido com este contista ou com o organizador da coletânea, Paulo Henrique Gonçalves.