domingo, 4 de fevereiro de 2018

Para descarte

Não. Diferente do que muitos pensavam e alguns diziam, ele não vivia do lixo. Neto era catador de material reciclável. Lixo era o que sobrava daquilo que ficava de fora de sua criteriosa seleção. Cobre, zinco e alumínio, papel, papelão, plástico e pneus. Nada passava despercebido aos seus olhos. Com pedaços de madeira que encontrava pelo caminho, já havia até mobiliado boa parte de seu casebre.

Um objeto chamou sua atenção, certa vez. Era um material escuro e resistente, em meio a jornais e revistas. Pegou-o com cuidado e percebeu que se tratava de um livro capa dura sem ilustrações. As letras eram minúsculas e exigiam esforço de quem tentasse decifrá-las. Apesar de uma mancha de café em todas as páginas, o papel apresentava bom estado de conservação. Neto levou o livro para casa.

Antes de se deitar, à luz de lamparina, folheou algumas páginas, enquanto jantava uma sopa requentada, como de costume. Sua intenção era saber se o livro tinha potencial para ser vendido a um sebo ou tão somente iria para a reciclagem. A leitura o fisgou de tal forma que ele não conseguia parar de folhear a obra. Foram pelo menos três capítulos em questão de minutos, até que, vencido pelo cansaço de um dia inteiro de trabalho, adormeceu com o livro nos braços.

No dia seguinte, saiu cedo com sua carroça coletora, mas não esqueceu o livro. Levou-o a tiracolo e, nos intervalos para descanso, avançava na leitura. Nunca ouvira falar daquela obra. Não havia como saber se era um título raro, um fracasso de vendas ou uma publicação marginal. Página a página, Neto se perguntava por que aquilo demorara tanto para encontrar seus olhos. Não sabia a resposta. Por sinal, nem o livro lhe trazia resposta alguma; somente questões. Ele não entendia o que tanto o prendia naquela obra. Talvez o fato de, ao ler, não se sentir preso, mas inexplicavelmente livre.

Muitas palavras fugiam de seu vocabulário. Ainda assim, apreendia, pelo conjunto, o que dizia o autor. A linguagem era direta e dialógica. O escritor parecia falar diretamente a Neto. A cada capítulo, fazia-lhe perguntas, às quais Neto se esforçava para responder, ainda que isso o levasse a novas questões, cada vez mais complexas, agora feitas pelo próprio leitor. Por vezes, o autor fazia gracejos e ambos, autor e leitor, juntos, caíam na gargalhada.

O livro falava de um lugar deserto, onde outrora era intenso o tráfego de seres humanos. Agora só restavam ali animais de carga abandonados pelos antigos donos. O incrível é que continuavam a ir e vir como se ainda estivessem a transportar pessoas e mantimentos em troca de capim. Muitos morriam de fome e estafa nessa infindável viagem. Alguns se davam conta de que não havia mais um dono a chicoteá-los e que só a eles próprios cabia perseguir alimento e o seu destino. Raros grupos debandavam-se e descobriam terras férteis nas redondezas.

Finda a leitura, Neto começou a se perguntar se não somos todos animais de carga a perambular de um lado para o outro sem saber sob as ordens de quem. Pensou ele que deixar de enxergar que não temos dono e que podemos seguir novos rumos significa estar fadado a morrer uma indigna morte, antecedida de uma vida não menos indigna.

Neto olhou para si e para os lados. Não suportava mais ser visto como lixo, descartado como os animais de carga da história abandonados pelo dono. Estava disposto a fazer algo; só não sabia o quê. Partilhava suas angústias com os colegas de ofício. No princípio, ridicularizavam-no: diziam que enlouquecera, que não havia nada a fazer e que, desde que o mundo é mundo, tudo sempre foi assim.

Mas, aos poucos, o que Neto dizia tocava as pessoas e passava a fazer sentido. Ele já não estava só. Agora eram várias vozes numa só voz. Passaram a se reunir com frequência para conversar. Cada vez mais, o grupo crescia. Falavam sobre o que viviam e queriam. Decidiram tomar as próprias rédeas e traçar novos caminhos. Começaram a exigir tratamento digno. Afinal, eram trabalhadores cujo labor impedia que a cidade se tornasse o lixo que seres de passagem produziam sem se preocuparem onde isso ia parar.

No começo, Neto e seus parceiros apanhavam da polícia. Nas ruas, eram xingados e acusados de serem os responsáveis pela imundície em que se encontrava a cidade. Resistiram e, aos poucos, percebiam que algo diferente acontecia: já não eram invisíveis. A muitos convenceram de que pôr as mãos em detritos não os contaminava, nem os tornava lixo. Impuseram-se, reinventaram-se e fizeram a cidade reciclar seu olhar sobre eles.

Tempos depois, uma das estantes de uma biblioteca comunitária do bairro guardava um livro que falava de animais de carga abandonados pelos donos em um lugar deserto. Bem ao lado, ficava outro: a autobiografia de um homem que, depois de encontrar no lixo um livro, reescreveu a história da cidade.


* Este e outros contos estão na obra Livrinho da Silva. Para aquirir o livro, entre em contato com o autor: aldenor_pimentel@yahoo.com.br

** Para Descarte foi também selecionado para publicação na Revista Benfazeja.

*** Para ler outros contos do mesmo autor, acesse:

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Antologia do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros

Para acessar o livro com poemas e contos premiados no II Concurso Literário Internacional Palavradeiros, além de textos literários de convidados, clique na foto abaixo.


Para mais informações, clique no regulamento do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Enfadado de lugares-comuns, o poeta refugiou-se nas montanhas. Do topo, mergulhou no mar de palavras já ditas. Encharcado delas, caminhou até a praia e as deixou cair na areia. Com a ponta dos dedos, enterrou-as no chão e viu brotarem neologismos. Para ele, reinventar o antigo não era novidade.
Fonte: blog A Procura da Felicidade

* Este conto foi o 16º colocado da segunda semana do V Prêmio Escambau de Microcontos, realizado pelo Coletivo Escambau de Arte e Cultura, e pode ser encontrado no site do coletivo.

** Para ler microcontos do mesmo autor selecionados em edições anteriores do Prêmio Escambau de Microcontos, acesse:
*** Leia também outros microcontos do autor:

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

II Concurso Literário Internacional Palavradeiros - apoiadores

Relação (preliminar) de patrocinadores e apoiadores do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros (via financiamento coletivo)

Patrocinador
José Vilela

Apoiadores

  • Cristina Camargo
  • Edgar Borges
  • Gabriel Alencar
  • João Peçanha
  • Marcelo Perez
  • Marco Antônio Tessarotto
  • Ricardo Dantas
  • Roberto Mibielli
  • Rodrigo Leonardo Costa de Oliveira


E a lista só aumenta! Faça parte você também.

Colabore: catarse.me/palavradeiros (As contribuições pela internet encerraram. Se você quiser, pode fazer a sua doação. Para saber como, entre em contato: aldenor_pimentel@yahoo.com.br)

As doações podem ser feitas a partir de R$ 10,00.
Os doares recebem recompensas e a nossa eterna gratidão

Para saber mais sobre o concurso, clique aqui.
Para doar e saber mais sobre o projeto, clique aqui.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Livrinho da Silva

Sinopse: Livrinho da Silva traz mais de vinte contos que se desenvolvem em torno do universo da leitura, do livro, da figura do escritor, da experiência da escrita, etc. Podem ser histórias de vidas transformadas a partir do contato com o livro e da experiência da leitura ou que lancem novos olhares sobre a presença do ler e do escrever na nossa vida. Alguns textos desta coletânea foram premiados em concursos literários nacionais, com destaque para os contos ‘Tráfico’ e ‘O Dia em que Meus Escritos Já Não Eram Meus’, respectivamente, primeiro colocado no 5º Prêmio Literário Sérgio Farina, categoria Prata da Casa, da Prefeitura de São Leopoldo, e terceiro no I Concurso Literário ICBIE 2015.

Formato: 10,7 x 10,8 cm

Número de páginas: 72

Editora: Catarse


Peça o seu pelo e-mail: aldenor_pimentel@yahoo.com.br

Para ler alguns contos do livro, acesse:

Veja post sobre outro livro do mesmo autor:

terça-feira, 17 de outubro de 2017

II Concurso Literário Internacional Palavradeiros: Comissão Julgadora



Lívia Milanez é escritora, resenhista, revisora e tradutora. Publica alguns de seus textos no canal “A Grande Desova”, resenhou romances do Prêmio Sesc de Literatura e foi homenageada como leitora especial pela comissão organizadora do concurso em 2015. Em 2017, participou da coletânea Novena para pecar em paz (editora Penalux) com o conto “Um caule de mogno”.





Mestra Lainha é multi-artista. Atriz, escritora, compositora, cordelista, performer, faz poesias, contos e crônicas. Premiada em todas essas áreas, tem em sua extensa carreira solos criativos premiados de poesia e Literatura de Cordel. Além de compositora, é Cordelista, Artista, Psicopedagoga, Atriz, Diretora e Produtora. Presidente do Ponto de Cultura Literatura de Cordel para todos em Ilhéus-Bahia.






Zanny Adairalba – Poeta e compositora desde a infância, Zanny acumula em seu currículo diversos prêmios por suas criações poéticas e musicais. Em 1992 deixou Pernambuco para residir em Roraima, onde desenvolve trabalhos voluntários de incentivo à leitura junto ao Coletivo Caimbé. É autora das obras poéticas Micropoemas, Palavras em preto e branco, Repoetizando, Carrossel Agalopado,  PoesiaZinha, Pétala de despedidas e Movimentos Inexatos, além de cordéis que abordam temas variados.





Acesse ainda:

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

II Concurso Literário Internacional Palavradeiros: resultado

Com vocês, o resultado do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros

Poesia
1º lugar: Bailarino (Duda Azevedo)
Escola: Ayrton Senna da Silva
Orientadora: Darlete Souza Nascimento

2º lugar: Despedida ao inominável (Fernanda Fonteles Albuquerque)
Escola: Colégio de Aplicação
Orientadora: Maria Adrenalina do Nascimento Oliveira

3º lugar: Liberdade (Kemilly Duarte Mota)
Escola: Colégio de Aplicação
Orientadora: Maria Adrenalina do Nascimento Oliveira

Conto
1º lugar: Dançarina (Don)
2º lugar: Corrida noturna (Gabriel Alencar)

3º lugar: E o fim dos dias findos (Tata)

Ao todo, foram 8 inscritos, entre estudantes e escritores iniciantes e experientes.

Não houve inscrições na categoria Videopoesia.

A data e o local da premiação serão divulgados posteriormente.

Conforme regulamento, será concedida premiação em dinheiro aos três primeiros colocados de cada categoria, conforme abaixo:

Categoria Poesia
1º lugar: R$ 100,00 para o(a) aluno(a) e R$ 25,00 para o(a) professor(a)/orientador(a);
2º lugar: R$ 50,00 para o(a) aluno(a) e R$ 25,00 para o(a) professor(a)/orientador(a);
3º lugar: R$ 25,00 para o(a) aluno(a) e R$ 25,00 para o(a) professor(a)/orientador(a).

Categoria Conto
1º lugar: R$ 100,00;
2º lugar: R$ 50,00;
3º lugar: R$ 25,00.


Todos os finalistas receberão ainda certificado. Os finalistas que estiverem presentes na solenidade de entrega dos prêmios receberão também premiação complementar, a ser definida pela Comissão Organizadora.

Agradecemos a todos os participantes.

Comissão Organizadora

sábado, 23 de setembro de 2017

Novos Franciscos

No coração da Amazônia, o tiro acerta o alvo. O corpo de Francisco vai ao chão, feito árvore tombada. Xapuri chora pelo líder seringueiro. “É o fim”, pensam seus algozes.

Os anos seguintes são de progresso. A ordem é não deixar uma árvore em pé. A floresta precisa dar lugar ao lucro.

Pouco tempo depois, o trabalho está quase completo. Resta somente uma seringueira, nascida intrigantemente no local exato onde Francisco caiu ferido.

Na hora marcada, as máquinas estão posicionadas. Dado o sinal, avançam em direção à árvore. Aos poucos, vai chegando uma gente do povo, que se coloca entre a seringueira e os tratores, para empatar a derrubada.

Mesmo sob ameaça, o povo não arreda o pé. Ouve-se um tiro e, no meio da multidão, um corpo cai. Feito látex a escorrer da árvore amazônica, o sangue do ferido toca o chão e, dali, se ergue outra imponente seringueira.

Perplexos, os jagunços voltam a atirar. E, a cada corpo que cai, nasce uma árvore. E de cada árvore, um novo Francisco. O que os algozes de Chico não sabiam é que balas não matam sonhos.


Viva! A floresta está viva.


 * O conto ‘Novos Franciscos’ foi publicado na revista Marinatambalo (3ª ed., v. 2, set. 2017) e na antologia 'Do Nascimento ao Epitáfio'. Foi  ainda selecionado pelo Concurso Literário Internacional “Natureza 2017-2018”.


 Outros contos do mesmo autor: 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Concurso Literário Internacional Palavradeiros - inscrições encerradas


 



Ao todo, 8 inscritos, entre estudantes e escritores iniciantes e experientes.

Agora é com a Comissão Avaliadora!

Os finalistas serão comunicados com antecedência.




quarta-feira, 30 de agosto de 2017

II Concurso Literário Internacional Palavradeiros - inscrições prorrogadas até 11 de setembro de 2017


Acesse: Regulamento do II Concurso Literário Internacional Palavradeiros (2017)

Quem Ganha com as Eleições?




Você já reparou como nos referimos às eleições? Tem sempre alguém que ganha e outro que perde a disputa eleitoral. Ganha? Perde? Disputa? Então se trata de uma competição? E pelo quê? Pela defesa do País?

Os atletas quando competem estão à procura de fama e dinheiro. E os nossos candidatos políticos buscam o quê? Se o objetivo é o mesmo (defender a população), por que há disputa? Quem tem os mesmos objetivos não precisa brigar entre si. Afinal, não existem adversários. Estão todos do mesmo lado. Já numa batalha pela conquista de um território vale tudo. Principalmente, golpe baixo.

Mas eleição é isso mesmo? Não seria esse o momento em que escolhemos as pessoas mais preparadas para decidir os rumos do País? A melhor metáfora seria uma competição esportiva, uma guerra ou um processo de seleção, em que, de acordo com os critérios previstos no regulamento, escolhemos os melhores candidatos? Fico com esta última opção. A melhor pergunta não seria, então, quem ganhou ou vai ganhar as eleições, mas quem ganha com as eleições. E a resposta para essa pergunta deveria ser: o povo.

* A crônica ‘Quem ganha com as eleições?’ ficou em 3º lugar no IV Concurso Literário da Academia Leopoldinense de Letras e Artes (ALLA).


Leia também a crônica: Jornalista vale alguma coisa?

Leia ainda:
Poema de sacanagem

A multiplicação dos pães partidos

Deus para presidência (trecho do livro)
Kitiama para sempre