terça-feira, 10 de julho de 2018

Espreme que sai sangue

Ora, senhoras e senhores, de uma vez por todas está resolvido o problema no estoque no Hemocentro. Não há mais com o que se preocupar. É sangue de todo tipo. É O, é B, é A. Pensamento positivo, seja o fator RH positivo ou negativo. Quando for preciso, vai ter sangue na veia. E a solução, afinal, vem do jornal. 


Esqueçam as campanhas de sensibilização. Natal, Semana Santa, Carnaval. Doação de sangue em massa é coisa que já não se faz. O sangue que vai abastecer agora de forma permanente o Hemocentro vem da página policial dos jornais. Hemácias, plaquetas e glóbulos brancos. O jornal é fonte inesgotável. E fontes não faltarão. Os jornais vão doar-se até a última gota e vão cumprir até o fim o seu papel social. 

Que importa o que está escrito? O importante é que nas veias dos pacientes vai correr o sangue do jornal, misturado com a tinta da impressão. E a cada edição, há que se comemorar pelo papel que vai jorrar sangue e informação. E a morte no jornal vai salvar vidas. E outras vidas continuarão a fazê-lo amanhã. 

Viva as poças de sangue no asfalto! Viva os mortos na primeira página! Por acidente, publicaram uma matéria na semana passada em que o trânsito de tão tranqüilo só matou quatro. Mas fiquem calmos, senhores leitores, por que o Hemocentro não precisa mais de doadores. E o sangue todo, quem diria, vai sair do jornal. 

Cabeças podem rolar. Membros podem partir. Mas uma coisa é certa: ninguém vai morrer por falta de sangue. Vida longa ao jornal! Vida longa à página policial! Que morram as árvores para dar a luz ao papel! Afinal, árvores não sangram e muito menos sabem ler. Mas as pessoas sabem muito bem o que fazer: jornal. 

* Esta crônica foi publicada originalmente no livro Retalhos, organizado por Aroldo Pinheiro.

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