Desde
que o mundo é mundo, cães são cães e gatos são gatos. E cães caçam gatos e
gatos fogem de cães. Mas uma verdade que muitos enterram na areia é que existem
gatos, e não são poucos, que querem ser cachorros. E de tudo fariam para sê-lo.
Acontece
que cães não são de aceitar gatos no clube. Mesmo assim, um grupo de felinos
resolveu enfrentar as feras e não saiu em fuga com o rabo entre as pernas diante
do primeiro 'não' ou mesmo da primeira rosnada.
Ao
mostrar terem garra e serem bichos de raça, os tais gatos ganharam o direito de
sonhar com a possibilidade de entrarem para a matilha. Não da noite pro dia; e
nem de qualquer jeito. Eles seriam submetidos a provas.
Acordo
feito, começaram os primeiros desafios: em poucos dias, os gatos deixaram de
miar, se lamber e se esfregar nos humanos; aprenderam a latir, rosnar e atacar
em bando. Mas entrar para a gangue não seria tão fácil. Eles teriam que fazer
bem mais que mostrar os caninos afiados.
A
cada dia, vinham testes mais e mais difíceis e perigosos. Um a um eram
superados; e a vitória, festejada aos uivos. A última comemoração foi breve,
logo interrompida pelo aviso de que aquela não era a prova final. A prova de
fogo estava por vir e foi solenemente anunciada: para serem definitivamente
aceitos no bando, eles deveriam fazer mais que imitar cães: tinham que agir e
pensar como cães. O grande teste a eles imposto foi o de se voltar contra os
próprios pares e, feito cães, caçar, ferir e matar outros gatos.
O
susto com a notícia foi grande. Não foi fácil renegar a própria raça, mas eles
já tinham ido muito longe pra desistir de tudo. Já que chegaram até ali,
resolveram seguir em frente.
No
começo, doeu um pouco neles, mas doeu muito mais na carne de suas vítimas: pobres
gatos e gatas caçados, feridos e mortos. Os bravos gatos estavam definitivamente aprovados. Entraram para a matilha.
O
tempo passou e os gatos-cães se multiplicaram e se tornaram maioria no bando.
Aliás, passaram a dar as ordens. Já nem pareciam gatos. No comando, viram os
cães se extinguirem. Para a alegria dos felinos, pensavam alguns, cansados de caçadas,
ferimentos e mortes.
Mas
não foi bem isso que aconteceu. Com o fim dos cachorros, os gatos-cães
continuaram a caçar, ferir e matar gatos. Já não eram mais gatos que agiam
feito cães. Agora, eles eram cães.
* Este conto foi selecionado para publicação pelo IX Concursos de Contos do Grupo Livrarias Curitiba e na revista LiteraLivre (16ª ed.).
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